Do Vale do Swat para a Vila Rica!



Tudo começou com uma prova de Língua Portuguesa em que 90% dos alunos tiraram notas abaixo de 3.0! Depois desse desastre estava claro que algo precisava ser feito.

Nem sempre notas baixas são sinônimo de dificuldade de aprendizagem. Um fenômeno muito frequente em escolas públicas atualmente é alunos que desistiram de aprender, que não conseguem se comprometer com o aprendizado ou mesmo não enchergam o real valor do estudo. A avaliação do professor para esse teste desastroso foi de que mais que dificuldade com o conteúdo, os alunos estavam desmotivados.

Veio a ideia de ler um livro coletivamente, mas um livro que além de proporcionar conteúdo e prática de leitura, proporcionasse inspiração e reflexões sobre o estudo, algo que os ajudassem a valorizar o direito sagrado a educação.

Direito que eles possuem, mas que de tão acessível e comum, parece não ter valor!

Como eu e a escola não tínhamos recursos para a aquisição de livros para todos os alunos, adquiri um exemplar físico e um e-book do mesmo. O livro físico serviu para experiências compartilhadas de ter aquele objeto nas mãos, e mesmo para que algum aluno que preferisse, pudesse realizar a leitura no exemplar em mãos. Mas a grande maioria da turma preferia acompanhar a leitura na projeção feita através do Ipad ligado a datashow. Projetávamos a imagem na parede da ala e assim lemos página por página. Todo o livro foi lido no horário de aula, e cada dúvida abria espaço para rodas de conversa, pesquisas na internet realizadas alí, no mesmo equipamento onde fazíamos a projeção do livro, tudo em um processo coletivo, mas ao mesmo tempo atento aos sinais de cada aluno.

E foi assim que um projeto de leitura SUPER vitorioso, mas extremamente simples, tomou toda a escola e fez conhecida a luta de Malala Yousafzai, uma adolescente de vida tão comum e limitada quanto a de muitos adolescentes brasileiros.

A leitura do livro durou algumas semanas com a participação dos professores de Educação Física (Leonardo Moura) e Ciências (Adriana Cristina), da coordenadora pedagógica (Daniene Pimenta), diretora (Fernanda Ribeiro) e até do apoio pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, Anna Christina Alves de Souza. O resultado foi muita empolgação com o ato de ler, novos conhecimentos sobre uma região específica do planeta que até então era desconhecida para eles e o surgimento de um ídolo.

O livro que, a princípio, era assunto das aulas de Língua Portuguesa, foi absorvido por diferentes disciplinas, virou tema de conversas de corredor, tomou a sala dos professores e promoveu muitas reflexões. Ao final da

A menina que aos 14 anos foi vítima de um atentado a mando do Taliban devido a sua luta pelo direito de meninas paquistanesas frequentarem a escola se tornou referência, e mais que oportunidade de contato com novos conteúdos, a aula se transformou em oportunidade de discutir valores, ideais, direitos, engajamento e educação.

Ao final do processo de leitura, que durou quase 2 meses, uma nova avaliação foi aplicada, o resultado foi surpreendente. Mesmo sem ter revisado os conteúdos dessa avaliação, as notas demonstraram que o diagnóstico inicial estava certo, tinha sido desmotivação a principal causa do desastre nas notas. O projeto de leitura visando discutir o papel do aluno e a importância da educação conseguiu trabalhar o que era urgente naquele momento.

“A cada um dólar uma criança na escola”

E Malala, com sua luta conseguiu motivar alunos de outro continente. Ao destrinchar o site da Fundação Malala nas aulas de Inglês (olha a conversa entre as disciplinas aí, da aula de Português já estamos na de Inglês) os alunos descobriram que poderiam ajudar a mais jovem vencedora de um Nobel a colocar mais crianças na escola.

Eles montaram uma cesta básica, o professor produziu bilhetes para sorteio e juntos sairam pela escola e ruas da comunidade vendendo rifas, para arrecadar reais, que seriam trocados por dólares, que se converteriam em crianças em salas de aula em lugares diversos do globo, lugares e pessoas que eles não conhecem, mas que terão a certeza que ajudaram a melhorar a realidade.

A ação rendeu algumas centenas de rais que foram trocados por dólares americados, dólares que significaram, para a Fundação Malala, 100 crianças na escola por um ano. Disso tudo ainda surgiu a oportunidade para uma conversa matemática sobre conversão de moedas, economia mundial, cotação das moedas e etc.

O depósito foi feito na conta da fundação e eles podem exibir orgulhosos o comprovante desse depósito que eles foram responsáveis por todo o processo.

Mas essa história não acaba aqui, um aluno teve a brilhante ideia de propor mais um desafio: “a gente envia a vocês o livro que lemos na nossa aula, vocês fazem a Malala autografá-lo, nos devolve e a gente vai transformar ele em mais dólares para que a fundação coloque mais crianças na escola”.

Advinha! A equipe da Malala respondeu nosso e-mail, aceitou o desafio e em breve a gente conta pra vocês mais um capítulo dessa história que teve origem em uma prova cheia de notas vermelhas.