Aula no supermercado



Ainda no primeiro dia, outra experiência me marcou, uma aula no supermercado.

Esse tipo de aula é até comum em escolas brasileiras, mesmo em escolas públicas, mas normalmente acontece como um dia especial, algo fora da rotina da escola, essa foi justamente um dos grandes diferenciais que percebi aqui.

Vou descrever a experiência em terceira pessoa e também utilizando algumas falas dos alunos, professores e os demais envolvidos.

Era cerca de 9:50 quando saímos de ônibus da escola, foi necessário 2 veículos. Durante todo o dia 3 ônibus permanecem na porta da instituição.

Em cada ônibus foram o motorista e um auxiliar, mais professora e duas auxiliares. Ao todo contei 49 crianças.

No caminho até o ônibus as crianças mostraram-se bastante empolgadas com o passeio, comentavam entre si o que veriam, mostravam uns aos outros o dinheiro que levavam, uns em potes transparentes, outros em necessaires, outros em sacolinhas. Cada aluno estava com uma mesma quantidade de dinheiro, 20 rúpias, cerca de 1 real.

Chegando ao supermercado mantiveram-se em dois grupos, sendo que cada um tinha duas auxiliares e uma professora à disposição.

– Daquele lado estão os eletrodomésticos, será que podemos comprá-los?

– Nãaaaao.

– Por quê?

– Não temos dinheiro suficiente.

Foram para uma seção onde havia copos de plástico.

– Quem aqui precisa disso? (Algumas mãos erguidas.)

A professora então chamou um aluno para explicar por que ele precisava daquilo e se estava disposto a comprar. O aluno respondeu que o objeto era útil, mas que em casa e na escola tinha copos que ele poderia usar e que, portanto, não iria gastar seu dinheiro ali. Foi assim também em uma seção de lâmpadas, ferramentas e tantas outras. Vários questionamentos e incentivos para que os alunos desenvolvessem suas ideias sobre tais produtos.

Na prateleira dos biscoitos os alunos se interessaram por um determinado pacote, a professora pediu que não só pegassem os produtos, mas analisassem os preços e comparassem com o que tinham disponível.

– Quantos biscoitos é possível comprar com seu orçamento?

– 1 biscoito?

– Sim?

– 2 biscoitos? 3 biscoitos?

– Calculem mentalmente.

O movimento e os questionamentos sobre valores e relevância dos produtos se repetiram por várias seções do supermercado. Nas seções mais interessantes para as crianças eles se detinham mais tempo. A maioria combinou dois produtos, alguns 3, as professoras e suas auxiliares os levavam a calcular mentalmente se tinham dinheiro suficiente para a compra e se realmente estavam interessados naquilo.

Os alunos que se decidiram primeiro foram sendo levados para um local onde ficaram sentadas no chão, uma auxiliar permaneceu ali promovendo conversas em torno dos produtos e mantendo os meninos ocupados. Os demais continuavam passeando pelas prateleiras. Ambos os grupos se comportavam bem, um ou outro se dispersava mas logo era “resgatado”.

– Somem seus produtos e subtraiam do seu orçamento, mentalmente. Quantas rúpias você tem, quanto custa suas compras?

– Se você quiser comprar um produto que custa mais do que tem poderá combinar com um colega, mas precisarão dividir depois. Conversem bem.

Com os alunos que já haviam completado o processo de escolha, uma auxiliar discutia sobre o cartão de crédito como forma de pagamento enquanto mostrava aos pequenos seu próprio cartão.

– Um cartão de crédito te dá algum tempo para pagar suas compras, mas há um limite de tempo e de valores. Você não pode comprar tudo que quiser pois o limite acaba.

– Pra sempre?

– Não, só até você efetuar o pagamento da fatura.

Já no caixa a professora repassava uma a uma as compras de cada aluno, as auxiliares davam o suporte.

Tem me chamado a atenção o fato de as crianças conseguirem esperar focadas o desenvolvimento de uma atividade, mesmo em momentos em que elas não estão diretamente envolvidas. Não há conflitos e nem reclamações. Eles conversam entre si, um ou outro conversa só ou se distraem com movimentos como se estivessem interagindo com alguém imaginário, coisas comuns de crianças.

Isso me chama muita atenção aqui, pois é um grande desafio pra mim e outros colegas de profissão conseguir fazer com que os alunos aprendam a esperar.

Os alunos demonstraram estar muito ambientados com a situação, realmente não era uma atividade especial, mas corriqueira.

Quando passavam pelo caixa, cada criança recebia seu cupom fiscal e sentava-se no chão para esperar os demais, ao sentar conferiam seus cupons e depois dobravam e guardavam. Alguns, de tão pequenos demonstravam dificuldades em dobrar o papel e colocar na sacola.

Percebi pouca dispersão durante todo o processo, que durou em torno de 1 hora e 1/2 no supermercado. Também não se comportaram como máquinas ligadas 100% do tempo, quando falo em pouca dispersão é baseado na concentração possível a crianças de 6, 7 anos.

Também não houve conflitos, discussões ou brigas. O tempo todo as relações foram harmoniosas e meninos e meninas interagiram igualmente.

De volta ao ônibus permaneceram com suas compras intactas. Ninguém pediu pra abrir, chegaram na escola e eu nem percebi o que fizeram com as compras. Só depois do almoço voltei a vê-las.

Pontos que me chamaram a atenção:

  • Professoras de fala firme, sem infantilização;
  • Alunos muito à vontade para interagir com os professores e auxiliares;
  • As professoras não interrompiam as interações mesmo quando pareciam já ir longe demais, elas simplesmente fluíam até que os próprios alunos mudavam de rumo;
  • Quando questionados, os alunos argumentavam de uma forma que me impressionava, nem tanto pelos argumentos, mas por demonstrar que refletiam sobre as questões propostas, tipo: “Qual a necessidade desse produto para você?”;
  • As crianças comportavam-se como crianças, os argumentos eram de crianças, a empolgação idem, mas demonstravam ser crianças estimuladas a pensar, interagir e questionar.

No período da tarde a aula continuou em torno dos produtos e da experiência; análise das embalagens, informações nutricionais, cores, formas, sabores, usos, palavras que os davam nome etc.

– Como foi sua experiência no mercado hoje?

– O que você aprendeu com a experiência?

– Eu prendi a ver primeiro se meu dinheiro é suficiente.

Discutiram o significado prático da palavra transação e depois escreveram no quadro. Nessa parte da aula todos estavam em sala, mas as cadeiras estavam empilhadas em um canto, os alunos sentaram no chão e a professora em um banco bem mais baixo que o normal.

Um aluno que teimou em não se conectar com a aula foi amparado por uma auxiliar que passou a atendê-lo individualmente.

Tenho percebido que o que normalmente acontece em escolas tradicionais esporadicamente e com o status de momento especial, na Riverside é encarado como “aula normal”. Pouco importa para os alunos se é uma conversa, um passeio, uma atividade no livro ou caderno, eles não diferenciam uma ou outra atividade como especial pois a escola os faz entender que toda situação traz aprendizado.

Também está ficando bem claro, pra mim, que o papel dos professores aqui é justamente explorar tais situações guiando o aluno ao questionamento e depois à descoberta.

Bem, já foram duas postagens longas só sobre o primeiro dia. Creio que na próxima semana conseguirei resumir mais minhas percepções, por enquanto tudo é novidade.