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Oficina de Cinema

Mais uma vez levamos para a escola os recursos da Oficina de Cinema ministrada pelos voluntários do Cinema Empreendedor. Em 2016 a oficina foi realizada com alunos do 8º e 9º anos, uma turma com cerca de 15 alunos com idades entre 13 e 15 anos, como de costume, postei aqui minhas impressões.

Depois de relutar decidi oferecer a a experiência a alunos mais novos, a turma FG( 6º e 7º ano idades entre 11 e 12 anos). Uma turma mais imatura e agitada, por vezes indisciplinada e com muita dificuldade em concentrar e agir coletivamente. Mas como quando se propõe inovar não dá pra ter medo de testar, lá fomos nós.

Com menos falas e mais ação, dessa vez os voluntários que ministraram a oficina começaram com um papo breve sobre contar histórias, mostraram um vídeo sobre o trabalho de um youtuber e fizeram um exercício de concentração, foi como ligar uma chave na moçadinha, eles mantiveram o foco na oficina que teve mais de 2 horas de duração.

Passada essa introdução mais reflexiva, partiram direto para a ação dividindo os alunos em grupos com tarefas diferentes para gravar um vídeo sobre uma campanha que estamos realizando para comprar kits escolares para crianças de uma escola em Luanda, Angola.

Com um objetivo tão tangível no qual os alunos já estavam comprometidos, a oficina os levou a conhecer os equipamentos manuseando-os, produzir o texto do vídeo, pensar propostas para o vídeo, produzir cartazes e trabalhar colaborativamente. É claro que o nível de envolvimento não foi o mesmo, nem todos se comprometeram da mesma forma, mas mesmo os menos comprometidos se envolveram o bastante para contribuir um pouco e não inviabilizar a realização da oficina.

Depois de uma série de aulas das disciplinas; História, Língua Portuguesa e Geografia, os alunos estudaram sobre o continente africano, e mais especificamente sobre Angola, sua história, localização, cultura, relações com o Brasil etc. Como proposta de interação e ação, a campanha deu um motivo palpável para que os alunos se relacionassem de maneira mais relevante com tais conteúdos desenvolvendo habilidades, entre elas a empatia. Como cereja do bolo veio a oficina para lincar as informações a que tiveram acesso e testar a capacidade de produção deles, durante todo esse processo as oportunidades de avaliar o aluno fazendo uso disso tudo são tão mais justas que um teste no papel, além de exigir mais, as possibilidades de sucesso são maiores quando eles são avaliados continuamente e em um contexto de uso real.

Vamos lá inventariar um pouco do que orbitou nesse processo:

– Conteúdos: mapas, território, continente africano, Guerra Civil Angolana, processo de independência angolana, colonização brasileira e angolana, língua portuguesa em Portugal, Brasil e Angola, palavras herdadas de línguas originais da África, influência da cultura africana no Brasil, trocas culturais atualmente entre essas duas nações etc.

-Habilidades: interpretação, comunicação, pensamento crítico, cooperação, trabalho em equipe, valorização para a diversidade, empatia, valorização da cultura, interesse intelectual, consciência etc.

– Educação de experiência: contato com conteúdos através de uma experiência viva e prática de modo a dar relevância e significado a essa experiência. Quando o aluno vive uma situação que é permeada de informação, a probabilidade dele ter mais interesse por essas informações é bem maior que em uma aula tradicional e, certamente, essas informações, junto com a memória daquela experiência, estarão mais facilmente armazenadas.

– Recursos Tecnológicos: internet, computador, celular, câmera, redes sociais etc.

– Uso dos conteúdos tradicionais em situações reais: reunir informações obtidas em sala de aula para criar um vídeo para uma campanha, alimentar um mural com textos sobre o país estudado, discussões, planejamento de uma campanha para arrecadar doações etc.

Aniversário Alimente Heróis Com Livros!

Há um ano tínhamos uma das aulas mais interessantes que o projeto Looking 4 Heroes já possibilitou proporcionar. Cerca de 50 crianças ocupavam pela primeira vez uma livraria, e não só para ver, mas para comprar livros.

O projeto começou com uma campanha de crowdfunding que nos ajudou a conquistar os recursos necessários, motivou muito aprendizado de conteúdos e desenvolvimento de habilidades, criou ambientes para discussões e motivou alunos e o professor.

Pra quem não acompanhou esse projeto, temos duas postagens aqui no site sobre ele; Alimentando Heróis Com livros e Ressignificando a Leitura. Vai aí também um trecho do programa Conexão Futura que discutiu o uso pedagógico do financiamento coletivo.

Quanto cu$ta voar na educação!

Investir na carreira pode ser um balsamo! Dos meus 5 anos e 3 meses como professor, sempre busquei cursos oferecidos pela minha rede de ensino, a rede pública municipal de Goiânia. Intercalados aos cursos e eventos dessa rede, também busquei participar de eventos e cursos da área do marketing, tecnologia e comunicação.

Devido a essa experiência, sempre me questionei sobre o fato de nós professores termos deixado perpetuar entre nós um modelo de formação tão teórico e chato. Até o ano passado, minha impressão era que eventos para professores eram um martírio, tanto que fui deixando de participar deles.

Em janeiro fiz um curso sobre palestras que me ajudou muito a repensar o preparo do material que crio para minhas aulas e também minha capacidade de comunicação. O investimento em tempo e dinheiro foi considerável, se comparado ao salário de professor que recebo, mas pra mim valeu a pena. A experiência melhorou o serviço que presto e isso consequentemente me trouxe satisfação, o que também melhora a qualidade dos meus serviços.

Agora estou novamente a caminho de São Paulo para participar de um evento super inovador e conceituado sobre educação. Excitado com a oportunidade de compartilhar experiência, aprender muito e encontrar grandes nomes dessa nova educação que está acontecendo Brasil afora, em muitos casos, extraoficialmente. Extraoficialmente porque o estado ainda não conseguiu alcançar o ritmo da educação inovadora que tem sido praticada em escolas por aí. E quando isso acontece, mais uma vez o professor paga para diminuir o atraso da educação pública.

E é sobre pagar o preço que eu estou pensando ao escrever este texto. Financeiramente falando, o investimento na carreira pode ser algo difícil para professores da rede pública, nossa realidade salarial é conhecida de todos. Além de possíveis limitações financeiras, é preciso lembrar também do fato de sermos engolidos por uma carga de trabalho que nos consome física e psicologicamente.  Nesse caso, restam os cursos oferecidos pelas redes públicas de ensino, muitas vezes ultrapassados, utilizando métodos nada inovadores, restritos a leitura de textos e slides, pouco relevantes. Quando o assunto é educação inovadora, esse modelo está longe de levar o profissional a algum lugar. Também preciso dizer que a possibilidade de escolher um evento do seu próprio interesse e poder pagar por ele torna a experiência muito mais valorizada e atrativa.

Criar seu próprio caminho pode ser algo demasiadamente caro, fora o investimento financeiro, ainda há também o psicológico. Ausentar-se da escola para se atualizar, mesmo arcando com os custos disso, como é o meu caso, às vezes custa olhares reprovadores dos colegas devido à nossa falta, nesse caso não trata-se de uma situação que eu vivencie, mas é uma realidade entre nós. Desde que comecei a voar longe em busca de criar um caminho independente, passei a ter muitas faltas não justificadas no trabalho. Pago com descontos no meu salário por me ausentar da escola para participar de eventos que não sejam oferecidos por minha rede. Para participar do Seminário Amplifica Internacional, por exemplo, além das passagens aéreas, locomoção na cidade, refeições, hospedagem e inscrição no evento, sofrerei o corte de um dia de trabalho, ironicamente o corte acontecerá em uma sexta-feira, dia em que, em tese, tenho metade da minha carga horária disponível para planejamento e formação. Por baixo, um investimento como esse pode custar quase o salário total de um mês de trabalho. Quantos profissionais podem fazer isso com certa frequência?

Preso a um sistema viciado e carente de refletir sua profissão, o professor precisa pagar um custo, muitas vezes bem alto, para encontrar o caminho das pedras. Diante do que está posto, acredito ser necessário pagar o preço da mudança para forçar que ela aconteça, mas poucos podem pagar esse custos, seja por uma vida financeira limitada, seja por uma autoestima abalada demais para enfrentar a cultura rígida que nosso sistema impõe. A atual e talvez a próxima geração de professores precisará arcar com esse custo para forçar uma mudança positiva.

Vejo São Paulo do alto e num misto de excitação e pesar penso que precisamos forçar uma mudança urgente no sistema público de ensino, do jeito que está, ele coloca diante do professor uma série de empecilhos para uma melhora. Como pode um profissional que trabalha com conhecimento ter dificuldade em acessá-lo! Mesmo assim, embora o pré-conceito diga o contrário, tem muito professor de escola pública pagando alto pra realizar uma educação acima da média e mais moderna que o sistema público é capaz de oferecer. Em se tratando de educação, voar é preciso, mesmo quando os ventos não sopram a favor.

P.S. 1 – Deixei um link pro site do evento no banner. Vou fazer outros posts nas redes sociais sobre como foi a experiência e devo escrever aqui no diário também.

P.S. 2 – Dividam comigo o que vocês pensam sobre o assunto. Vamos estabelecer um diálogo, e não precisa ser professor pra entrar nesta discussão. Comente, compartilhe com seus contatos, me ajudem a ampliar meu campo de visão. 

Aprendendo na prática a Pedagogia de Projetos

Nesta semana começamos na escola uma ação em conjunto envolvendo professores, coordenação e direção com o intuito de envolver ainda as famílias e comunidade em geral.

A ideia inicial era arrecadar fraldas para uma ex-aluna da escola que está grávida de quíntuplos, algo raríssimo. Mas o negócio tomou corpo, e eu tomei gosto. Resultado; estamos transformando a oportunidade em aulas sobre uma série de conteúdos. Eu mesmo dividi uma aula com a professora de ciências, enquanto eu trabalhava uma matéria publicada em site sobre o caso atento às questões textuais, a professora de ciências trabalha as questões técnicas ligadas à geração e gestação. Mas a situação ainda deu oportunidade prática de trabalhar probabilidade, técnicas e métodos de fertilização e etc.

Como etapa final do projeto, acontecerá um chá de fraldas, e envolvidos nas etapas de organização desse evento, os alunos ainda terão a oportunidade de, com outros professores, praticar até artesanato na confecção de lembranças.

Também sairemos nas ruas pedindo doações de fraldas, colando cartazes e convidando pessoas. E para expandir nosso raio de mobilização, ainda gravamos um vídeo. Uma oportunidade rica de movimentar os alunos e ainda ensinar valores e trabalhar habilidades.

É preciso a escola estar atenta ao que acontece em volta dele, no nosso caso, a mãe dos bebês é ex-aluna da escola, vizinha de alguns alunos e parente de outros. O caso está ganhando repercussão nacional, dada a sua raridade, e a escola precisa mostrar aos alunos que eles podem interferir positivamente e extrair aprendizado de situações como essa.

Mas também é preciso ter disposição e visão para além dos tradicionais parâmetros educacionais. Também não posso deixar de citar que é preciso ter uma estrutura que permita mexer em horários de aula, planejamentos individuais de cada disciplina e na rotina escolar de forma geral. O investimento é alto, mas o resultado vale a pena, eu mesmo aprendi muita coisa já no início desse projeto. Se alguém aí estiver disposto a ajudar os meninos com as fraldas, basta entrar em contato com a gente, vai ser bem motivador para eles, e pra nós professores, além de uma ajuda em boa hora para a mamãe dos quíntuplos.

A satisfação e o poder de uma aula com recursos

Estamos iniciando o ano letivo com um estudo sobre o gênero textual Diário com a turma FG – é uma turma multisseriada formada por alunos de 6º e 7º anos. Depois de alguns dias lendo exemplos, discutindo características e fazendo atividades sobre o assunto, chegamos a um momento do livro didático que cita e traz alguns trechos do livro O diário de Anne Frank. Por duas aulas procurei criar uma expectativa sobre a sensação de poder ter o tal diário tão famoso nas mãos. Enquanto isso, muitas perguntas, muitas dúvidas!

Quando enfim entreguei a cada um dos alunos um exemplar do livro, foi como entregar doce pra criança. Quase como encontrar água no deserto. O estudo entrou então em patamar mais elevado, já não mais estudávamos algo distante. A imaginação tinha agora um subsídio poderosíssimo.

Tentei captar em uma foto o brilho nos olhos de um aluno que estava bem na minha frente, pra preservá-lo, a foto não mostra seu rosto, mas foi com uma satisfação tão grande que ele me mostrou essa página com fotos.

_ “Professor, esses aqui são eles?!!!!!!”

Meu Deus, como é bom poder oferecer uma aula com recursos a esses meninos! Que privilégio ter a possibilidade de colocar nas mãos de cada aluno um livro e deixá-los viajar nos aspectos técnicos e literários daquela obra. Fazê-los ver e tocar o que muitos professores precisam apelar para imaginação.

Não da também pra não pensar em quem não goza das mesmas possibilidades. Os alunos perdem muito e a aula flui com mais dificuldade quando faltam os recursos. Não da pra falar em educação de qualidade sem recursos e eu me sinto duplamente orgulhoso por ter dado o start que tornou possível levar esse para nossas aulas.

Obs. Esses e alguns outros livros são recursos conquistados pelos próprios alunos através do projeto Alimente Heróis Com Livros.

Leia também sobre meus esforços para incentivar a leitura e torná-la mais agradável com meus alunos em Ressignificando a leitura.

A alquimia do planejamento de aulas

Sobre a complexidade de criar e produzir aulas, de arquitetar pontes e conexões para que o aluno transite de modo a construir seu conhecimento, essa tarefa se da de forma demasiadamente variável e difícil de ser controlada. Eu, por exemplo, tenho quatro horas em todas as sextas-feiras para planejar minhas aulas, porém quase nunca esse momento é fértil, quase sempre o ambiente não me permite um nível de criatividade suficiente para elaborar minhas aulas.

Outro dia, em pleno voo de Goiânia a São Paulo, às 5h da manhã, lendo o livro Nós, professores transformadores, veio uma onda criativa que me levou a estabelecer uma conexão com outro livro, a biografia de Ben Carson. Esse é o livro que estou lendo atualmente com meus alunos do 8º e 9º anos. Ele faz parte do projeto Alimente Heróis Com Livros. 

A biografia de Ben Carson tem servido de solo fértil para que eu inicie o ano discutindo preconceito, motivação, relações familiares, dedicação aos estudos, a cultura negra norte-americana e ainda praticar a leitura. Quero fazer um post  exclusivamente dedicado a essa experiência com meus alunos, por hora, digo apenas que, independente dos atuais questionamentos sobre essa figura que acabou tomando rumos duvidosos durante a última campanha presidencial nos Estados Unidos, Ben Carson tem uma história surpreendente e pode motivar muita gente. Em seu livro ele aborda o bullying que sofreu por causa da sua cor, dificuldade de aprendizado, condição social, problemas familiares etc.

Sobre o livro Nós, professores transformadores, estou sentindo uma identificação muito grande ao lê-lo. Sinto falta de ouvir “professores de sala de aula”, normalmente nossa voz é delegada a pesquisadores que não vivem a experiência da escola, alguns se quer a viveram. Nada contra pesquisadores que apenas observam, mas me faz falta ler e ouvir o que pensam e sobre o que vivem meus colegas em suas escolas. Lendo esse livro, além de sentir-me muito bem representado, ainda aprendo com o relato de colegas de profissão. Exemplo disso veio durante a leitura do texto “Eu queria ser negra só para ser igual à minha professora”, de Fernanda Castro.  Nele a autora fala sobre a professora Luana Tolentino em uma experiência de trabalho para fortalecer a identidade racial dos seus alunos.

Resumindo, o relatado de experiência que encontrei no livro me inspirou em um uso a mais com meus alunos da biografia de Ben Carson. A teia do nosso trabalho é complexa e difícil de criar ambiente ideal para sua construção. Produzir aulas é criatividade pura, e é difícil ter horários específicos pra isso, dessa forma, é preciso estar 24 por horas ativo e à disposição. Uma leitura aqui, outra acolá, um filme, um vídeo no Youtube, um texto no jornal, lugares que visitamos, pessoas com quem conversamos, enfim, professor é um grande alquimista que experimenta,  combina, recombina, inventa e reinventa.

E é claro que eu recomendo a leitura do Nós, professores transformadores: olhares sobre protagonismo e valorização docente, quem tiver interesse pode comprá-lo na Pipa Comunicação. Certamente falarei muito mais sobre ele durante este ano pois é um livro que fala muito intimamente comigo, ainda mais agora que ele realizou o feito de unir minha sala de aula às salas das professoras Fernanda e Luana, estamos agora envolvidos em uma mesma trama através dos nossos trabalhos, envolva-se também.

 

O desafio de manter-se fora da caixa.

O ano de 2016 foi indescritível. Pelo menos 80% do conteúdo deste site é resultado da minha experimentação dentro e fora de sala de aula e isso me enche de orgulho e gás para 2017. Nesta semana, no dia 23/01, foi o primeiro dia de aula e, de cara, uma pergunta se repetiu entre alguns alunos; “professor, o que a gente vai fazer de diferente neste ano?”.

É o grande desafio do ano pra mim, manter-me motivado, inspirado e com os radares ligados para conseguir manter o nível que alcançamos no ano passado. O desafio é grande, a educação passa por um período ainda mais instável em todo o país e em Goiânia não é diferente. Além disso, o trabalho com pessoas parte de uma premissa implacável, não existem receitas, logo, o que deu certo com os alunos em 2016 não garante sucesso com os alunos em 2017.

Ainda assim, eu trabalho ciente de que mais difícil pra mim é não buscar ser relevante, eu não me contento com o básico.

OBS. Fiz essa folha aí da foto e levei para os alunos pintarem e colar nas capas de seus cadernos. Antes, discutimos o conceito de “Educação fora da caixa”. Depois de uma discussão empolgada, dei a ordem; “pintem e colem”, uma aluna atenta e afiada ao tema então me respondeu; “mas professor, pintar é tão dentro da caixa”. Dei uma bola fora mas valeu me certificar de que eles estão por dentro da ideia. 

Planejamento 2017

Assim como fiz no recesso de final de ano de 2015/2016, estou agora investindo meus 30 dias de descanso em planejamento. Todo professor já está bem acostumado com isso, usar o tempo livre pro trabalho, mas em se tratando em Looking 4 Heroes e meu trabalho em sala de aula, trata-se de terapia.

Desejoso de manter o nível de trabalho do ano passado, quero manter aberta a ponte que permite trânsito entre minha sala e o mundo, mas quero aumentar o número de pistas nessa ponte, quero mais gente, informações e experiências transitando por ela.

Tracei uma meta especial para esse ano, que tem a ver com a sustentabilidade do L4H, espero não ter que gastar paramanter meus canais e as ações do projeto. O trabalho criativo já exige muito de mim, colocar a mão no bolso restringe muito meu trabalho, eu sou professor e é sabido que dinheiro não é uma vantagem dessa profissão. Ainda estou pensando e trabalhando em meios para resolver essa questão, estou aberto a ideias. Aceito ajudas de todas as espécies nesse sentido.

O ano de 2017 ainda terá mais um projeto envolvendo livros, mais um título novinho a ser conquistado e lido com meus alunos. Também quero conseguir trazer intercambistas internacionais para um projeto especial na escola, vou fazer um post especial falando sobre esse projeto. Ah, e tem mais um destino em busca de histórias, tem 3 na lista mas ainda estou estudando.

Espero conseguir manter o rítmo e a relevãncia em 2017, é o objetivo.

 

Novas linguagens – Cinema Empreendedor

Neste ano inseri nas aulas de Língua Portuguesa a produção de vídeos. Usei esse recurso como forma de incentivar a produção escrita (alunos produzindo roteiros e textos), trabalhar a leitura e a dicção (alunos diante da câmera) e apresentar a eles novas possibilidades. A experiência foi positiva, nunca antes fui capaz de incentivar tanta produção de texto de qualidade em minhas aulas. Foram muitos textos sobre diversos assuntos, em diversos gêneros e, consequentemente, muitos vídeos.

Nesse meio ainda exercitamos a criatividade e o improviso, criando estúdios e fazendo milagres com equipamentos amadores que eu disponibilizei aos alunos para a produção dos vídeos. E como é rica essa experiência do “faça com o que tem”. Isso é criar oportunidades diante da realidade limitada de uma escola pública, o que integra nossa ideia de “educação fora da caixa”, uma vez que ultrapassa os conteúdos tradicionais ao mesmo tempo em que reforça o ensino desses e ainda promove/treina/desenvolve habilidades.

E já nas últimas semanas de aula, eu resolvi colocar pra girar a engrenagem que o Looking 4 Heroes tem criado em torno do meu trabalho, a engrenagem das parcerias. Contatei a ONG Cinema Empreendedor através de um amigo que integra a equipe e pedi que realizassem uma oficina  de cinema com meus alunos. Os meninos montaram uma proposta especialmente pra gente e em dois dias de oficina vi os olhos dos meus alunos brilhando diante de um mundo novo que se abriu diante deles. Mesmo depois de um ano de muitas conquistas profissionais dentro e fora da escola, essa oficina ainda foi capaz de me emocionar.

Com uma abordagem bem prática e para além das atividades do cinema, eles fizeram da experiência uma oportunidade de aprendizado e reflexão a cerca da satisfação pessoal, do sucesso, gostos pessoais, novas possibilidades profissionais e “o que eu REALMENTE quero ser quando crescer?”. Ensinaram técnicas, discutiram produções e, ao final, colocaram os alunos pra trabalhar, produziram filmes com equipamentos profissionais que a ONG utiliza em seu trabalho. A sala de informática da escola foi transformada em um set de filmagens, uma preparadora de elenco dividiu os alunos em equipes, cada uma responsável por atividades específicas daquele universo; operar a câmera, cuidar da iluminação, som, atuação, cenário etc.

Tentei ficar longe o máximo possível, quis testar a autonomia e o comportamento dos meus alunos, também quis livrá-los dos vícios da minha metodologia e deixá-los livres para experimentar o método proposto pelos oficineiros. Deu certo, deu muito certo. Quando vi meus alunos extremamente conectados e comprometidos com as funções que foram designadas a eles, tive certeza mais uma vez do quanto essa escola tradicional de conteúdos tradicionais os obriga a viver sonhos que não são deles, aprendendo coisas que, diante das particularidades de cada um, são só coisas mesmo. Eu acredito muito nos conteúdos tradicionais, muitos deles nos levaram a grandes descobertas e avanços, eu só não acredito na universalização do ensino e cobrança deles diante de um contexto como o nosso, no futuro pretendo desenvolver melhor essa ideia, neste post quero tratar apenas do fato que essa oficina de cinema levou meus alunos a conhecer habilidades que eles não sabiam que tinham.

Observando, me chamou a atenção um aluno que tem problemas de comportamento e concentração durante as aulas. Normalmente ele não demonstra interesse ou comprometimento com as tarefas propostas, mesmo as tarefas “fora da caixa”. Nessa oficina, porém, ele foi designado para cuidar da iluminação do set improvisado, e a semente germinou e se desenvolveu. O menino simplesmente se envolveu, concentrou na cena, ouviu as informações passadas a ele, pegou dicas e, como quem nasceu para operar aqueles equipamentos, brilhou.

Será que ele vai tornar-se um profissional de iluminação e optará por trabalhar no mundo das câmeras e das imagens? Não da pra saber. Talvez ele sucumba ao efeito manada das carreiras profissionais tradicionais e torne-se um vestibulando frustrado, um profissional frustrado, uma pessoa frustrada. Talvez, diante da força das cobranças à sua volta, ele trave um embate interno entre seguir sua vontade e se encaixar nos padrões e acabe desistindo de tudo. É tudo muito incerto, porém, creio que esse aluno vai poder dizer que, ao menos uma vez, a escola ofereceu a ele uma chance real, prática e, principalmente, relevante de aprendizado onde pôde experimentar a satisfação de investir em algo que tem a ver com quem ele é de verdade. Não que a escola precise mantê-lo exclusivamente em torno de si, ao contrário, ela precisa levá-lo a terrenos desconhecidos, mas não deve tentar fazer um peixe voar competindo com falcões.

Para quem quer fazer algo parecido com seus alunos, sobre o sucesso da oficina, algumas observações precisam ser feitas:

– Em primeiro lugar, foi disponibilizada a participação apenas a alunos que se candidatassem a ela, isso fez com que o aluno não fosse obrigado a estar em um lugar que não te interessa.

– O número de alunos também foi outro ponto chave. Se houvesse 40 alunos na sala, não haveria metodologia ou atratividade capazes de salvar a oficina. Neste caso foram apenas 12.

– É preciso sondar os interesses e afinidades da turma, mesmo quando se pretende apresentar novidades.

É isso, comentem, entrem em contato comigo, discordem, questionem, repercutam o assunto. 

Experiência empreendedora

Dia 09 finalizou a última semana de aula regular na escola, uma parte dos alunos foi dispensada e outra parte ficará mais uma semana para reforço de alguns conteúdos. Por se tratar de uma escola de Ensino Fundamental, a última semana de aula do ano é também a última semana de aula na escola para os alunos do 9º ano, no próximo ano eles ingressam no Ensino Médio e, por isso, precisam buscar uma nova escola. Para celebrar esse momento de passagem, a escola sempre providenciou alguma comemoração para os meninos. E quando falo em “providenciar”, eu digo em conseguir dinheiro e meios através de doações, já que escola pública mal recebe dinheiro para manter seu funcionamento básico.

Mas em 2016, eu aproveitei a onda de entusiasmo e motivação que tomou meus alunos e propus à turma do 9º ano trabalhar para que eles conquistassem dinheiro suficiente para ao final do ano ter uma formatura de Ensino Fundamental à escolha deles. Mesmo meio desconfiados eles aceitaram e, nesta última sexta-feira, 09/12/16, eles finalizaram a última atividade que deu a eles um valor suficiente para que tenham, no dia 19 deste mês, a comemoração que eles escolheram. A turma é formada por 7 alunos, nem todos se envolveram de verdade com esse desafio, mas tenho certeza de que os que se comprometeram levarão algo mais na bagagem.

Eu sou professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa, de forma direta, e tradicionalmente falando,  minhas disciplinas não teriam ligação com as atividades realizadas durante o ano com esse fim, mas como me coloco como um profissional de educação comprometido com um aprendizado para além dos conteúdos, creio que liderá-los nessa empreitada não me fez fugir das atribuições da minha profissão.

Foi muito gratificante ver esses meninos experimentando o gosto da independência e da superação. Eles venderam bombons caseiros fabricados pela mãe de um deles, também venderam combos pipoca + refrigerante em seções de cinema na escola e também organizaram rifas. Fizeram contas, pesquisaram fornecedores, exercitaram a criatividade e experimentaram a um sentimento muito comum na vida real, o “será que a gente consegue?!”. E pela primeira vez a escola não terá gastos com a formatura de um 9º ano, pela primeira vez uma turma saberá o custo desse evento e o quanto a diretora se esforçava nos anos anteriores para oferecer isso a eles, já que a escola não possui recursos para esse fim.

Diante de tudo que observei do lado dessa turma nesse desafio, eu reflito sobre a complexidade do papel da escola e do professor. O que será mais útil à esses meninos no futuro, minhas aulas sobre morfologia ou o aprendizado conquistado no cumprimento desse desafio?