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Oficina de Cinema

Mais uma vez levamos para a escola os recursos da Oficina de Cinema ministrada pelos voluntários do Cinema Empreendedor. Em 2016 a oficina foi realizada com alunos do 8º e 9º anos, uma turma com cerca de 15 alunos com idades entre 13 e 15 anos, como de costume, postei aqui minhas impressões.

Depois de relutar decidi oferecer a a experiência a alunos mais novos, a turma FG( 6º e 7º ano idades entre 11 e 12 anos). Uma turma mais imatura e agitada, por vezes indisciplinada e com muita dificuldade em concentrar e agir coletivamente. Mas como quando se propõe inovar não dá pra ter medo de testar, lá fomos nós.

Com menos falas e mais ação, dessa vez os voluntários que ministraram a oficina começaram com um papo breve sobre contar histórias, mostraram um vídeo sobre o trabalho de um youtuber e fizeram um exercício de concentração, foi como ligar uma chave na moçadinha, eles mantiveram o foco na oficina que teve mais de 2 horas de duração.

Passada essa introdução mais reflexiva, partiram direto para a ação dividindo os alunos em grupos com tarefas diferentes para gravar um vídeo sobre uma campanha que estamos realizando para comprar kits escolares para crianças de uma escola em Luanda, Angola.

Com um objetivo tão tangível no qual os alunos já estavam comprometidos, a oficina os levou a conhecer os equipamentos manuseando-os, produzir o texto do vídeo, pensar propostas para o vídeo, produzir cartazes e trabalhar colaborativamente. É claro que o nível de envolvimento não foi o mesmo, nem todos se comprometeram da mesma forma, mas mesmo os menos comprometidos se envolveram o bastante para contribuir um pouco e não inviabilizar a realização da oficina.

Depois de uma série de aulas das disciplinas; História, Língua Portuguesa e Geografia, os alunos estudaram sobre o continente africano, e mais especificamente sobre Angola, sua história, localização, cultura, relações com o Brasil etc. Como proposta de interação e ação, a campanha deu um motivo palpável para que os alunos se relacionassem de maneira mais relevante com tais conteúdos desenvolvendo habilidades, entre elas a empatia. Como cereja do bolo veio a oficina para lincar as informações a que tiveram acesso e testar a capacidade de produção deles, durante todo esse processo as oportunidades de avaliar o aluno fazendo uso disso tudo são tão mais justas que um teste no papel, além de exigir mais, as possibilidades de sucesso são maiores quando eles são avaliados continuamente e em um contexto de uso real.

Vamos lá inventariar um pouco do que orbitou nesse processo:

– Conteúdos: mapas, território, continente africano, Guerra Civil Angolana, processo de independência angolana, colonização brasileira e angolana, língua portuguesa em Portugal, Brasil e Angola, palavras herdadas de línguas originais da África, influência da cultura africana no Brasil, trocas culturais atualmente entre essas duas nações etc.

-Habilidades: interpretação, comunicação, pensamento crítico, cooperação, trabalho em equipe, valorização para a diversidade, empatia, valorização da cultura, interesse intelectual, consciência etc.

– Educação de experiência: contato com conteúdos através de uma experiência viva e prática de modo a dar relevância e significado a essa experiência. Quando o aluno vive uma situação que é permeada de informação, a probabilidade dele ter mais interesse por essas informações é bem maior que em uma aula tradicional e, certamente, essas informações, junto com a memória daquela experiência, estarão mais facilmente armazenadas.

– Recursos Tecnológicos: internet, computador, celular, câmera, redes sociais etc.

– Uso dos conteúdos tradicionais em situações reais: reunir informações obtidas em sala de aula para criar um vídeo para uma campanha, alimentar um mural com textos sobre o país estudado, discussões, planejamento de uma campanha para arrecadar doações etc.

Empreendedorismo na escola

Tenho me debruçado sobre o desafio de construir condições didáticas. Uma das lembranças mais marcantes dos meus dias como aluno era o fato de ser apresentado aos conteúdos escolares de forma descontextualizada, aquela situação que gera os famosos questionamentos do tipo; “pra que eu vou precisar disso na minha vida?”.

Lendo um texto da Nova Escola sobre produção de texto, vi algo que explica muito bem essa falha do nosso modelo de educação. Um subtítulo do texto diz;Os textos redigidos em classe precisam de um destinatário”, é essa a ideia que pode conquistar a adesão dos alunos em qualquer disciplina. Quando o aluno não se vê dentro de uma situação real onde ele pode aprender e praticar suas habilidades, fica ainda mais difícil conquistá-lo para a aula.

Nem sempre é possível ou viável criar essas situações, mas quando a aula acontece dentro de uma situação real, com problemas capazes de levar o aluno a sentir-se desafiado, os resultados são mais certos e o processo mais prazeroso.

É pensando nisso que, desde 2016, decidi convencer os alunos do 9º ano a dispensar a festa de conclusão do Ensino Fundamental que normalmente a escola oferece a eles. Desde o ano passado nós os ajudamos a levantar a grana que precisam através da venda de bombons, realização de rifas e etc. Eles se sentem muito mais realizados ao final, quando conseguem escolher como irão comemorar e pagar a comemoração, e no durante esse percurso uma série de situações didáticas que servem a diversos conteúdos escolares de variadas disciplinas, contemplando ainda as preciosas habilidades.

Nesta primeira semana aconteceu a primeira ação, produção e venda dos famosos geladinhos. Eles foram responsáveis pela compra dos materiais, orçamentos, produção, divulgação e venda. Daqui até o final do ano vamos aproveitar essas situações reais para inserir o máximo de conteúdos e os alunos ainda estarão conhecendo habilidades que já possuem e desenvolvendo outras. Bem fora da caixa, do jeito que eles gostam!

 

 

Aniversário Alimente Heróis Com Livros!

Há um ano tínhamos uma das aulas mais interessantes que o projeto Looking 4 Heroes já possibilitou proporcionar. Cerca de 50 crianças ocupavam pela primeira vez uma livraria, e não só para ver, mas para comprar livros.

O projeto começou com uma campanha de crowdfunding que nos ajudou a conquistar os recursos necessários, motivou muito aprendizado de conteúdos e desenvolvimento de habilidades, criou ambientes para discussões e motivou alunos e o professor.

Pra quem não acompanhou esse projeto, temos duas postagens aqui no site sobre ele; Alimentando Heróis Com livros e Ressignificando a Leitura. Vai aí também um trecho do programa Conexão Futura que discutiu o uso pedagógico do financiamento coletivo.

Quanto cu$ta voar na educação!

Investir na carreira pode ser um balsamo! Dos meus 5 anos e 3 meses como professor, sempre busquei cursos oferecidos pela minha rede de ensino, a rede pública municipal de Goiânia. Intercalados aos cursos e eventos dessa rede, também busquei participar de eventos e cursos da área do marketing, tecnologia e comunicação.

Devido a essa experiência, sempre me questionei sobre o fato de nós professores termos deixado perpetuar entre nós um modelo de formação tão teórico e chato. Até o ano passado, minha impressão era que eventos para professores eram um martírio, tanto que fui deixando de participar deles.

Em janeiro fiz um curso sobre palestras que me ajudou muito a repensar o preparo do material que crio para minhas aulas e também minha capacidade de comunicação. O investimento em tempo e dinheiro foi considerável, se comparado ao salário de professor que recebo, mas pra mim valeu a pena. A experiência melhorou o serviço que presto e isso consequentemente me trouxe satisfação, o que também melhora a qualidade dos meus serviços.

Agora estou novamente a caminho de São Paulo para participar de um evento super inovador e conceituado sobre educação. Excitado com a oportunidade de compartilhar experiência, aprender muito e encontrar grandes nomes dessa nova educação que está acontecendo Brasil afora, em muitos casos, extraoficialmente. Extraoficialmente porque o estado ainda não conseguiu alcançar o ritmo da educação inovadora que tem sido praticada em escolas por aí. E quando isso acontece, mais uma vez o professor paga para diminuir o atraso da educação pública.

E é sobre pagar o preço que eu estou pensando ao escrever este texto. Financeiramente falando, o investimento na carreira pode ser algo difícil para professores da rede pública, nossa realidade salarial é conhecida de todos. Além de possíveis limitações financeiras, é preciso lembrar também do fato de sermos engolidos por uma carga de trabalho que nos consome física e psicologicamente.  Nesse caso, restam os cursos oferecidos pelas redes públicas de ensino, muitas vezes ultrapassados, utilizando métodos nada inovadores, restritos a leitura de textos e slides, pouco relevantes. Quando o assunto é educação inovadora, esse modelo está longe de levar o profissional a algum lugar. Também preciso dizer que a possibilidade de escolher um evento do seu próprio interesse e poder pagar por ele torna a experiência muito mais valorizada e atrativa.

Criar seu próprio caminho pode ser algo demasiadamente caro, fora o investimento financeiro, ainda há também o psicológico. Ausentar-se da escola para se atualizar, mesmo arcando com os custos disso, como é o meu caso, às vezes custa olhares reprovadores dos colegas devido à nossa falta, nesse caso não trata-se de uma situação que eu vivencie, mas é uma realidade entre nós. Desde que comecei a voar longe em busca de criar um caminho independente, passei a ter muitas faltas não justificadas no trabalho. Pago com descontos no meu salário por me ausentar da escola para participar de eventos que não sejam oferecidos por minha rede. Para participar do Seminário Amplifica Internacional, por exemplo, além das passagens aéreas, locomoção na cidade, refeições, hospedagem e inscrição no evento, sofrerei o corte de um dia de trabalho, ironicamente o corte acontecerá em uma sexta-feira, dia em que, em tese, tenho metade da minha carga horária disponível para planejamento e formação. Por baixo, um investimento como esse pode custar quase o salário total de um mês de trabalho. Quantos profissionais podem fazer isso com certa frequência?

Preso a um sistema viciado e carente de refletir sua profissão, o professor precisa pagar um custo, muitas vezes bem alto, para encontrar o caminho das pedras. Diante do que está posto, acredito ser necessário pagar o preço da mudança para forçar que ela aconteça, mas poucos podem pagar esse custos, seja por uma vida financeira limitada, seja por uma autoestima abalada demais para enfrentar a cultura rígida que nosso sistema impõe. A atual e talvez a próxima geração de professores precisará arcar com esse custo para forçar uma mudança positiva.

Vejo São Paulo do alto e num misto de excitação e pesar penso que precisamos forçar uma mudança urgente no sistema público de ensino, do jeito que está, ele coloca diante do professor uma série de empecilhos para uma melhora. Como pode um profissional que trabalha com conhecimento ter dificuldade em acessá-lo! Mesmo assim, embora o pré-conceito diga o contrário, tem muito professor de escola pública pagando alto pra realizar uma educação acima da média e mais moderna que o sistema público é capaz de oferecer. Em se tratando de educação, voar é preciso, mesmo quando os ventos não sopram a favor.

P.S. 1 – Deixei um link pro site do evento no banner. Vou fazer outros posts nas redes sociais sobre como foi a experiência e devo escrever aqui no diário também.

P.S. 2 – Dividam comigo o que vocês pensam sobre o assunto. Vamos estabelecer um diálogo, e não precisa ser professor pra entrar nesta discussão. Comente, compartilhe com seus contatos, me ajudem a ampliar meu campo de visão. 

O que faz a sala de aula, o contexto ou as paredes?

Nesta segunda-feira tive meu último dia de aula com a turma do 9º ano da Escola José Carlos Pimenta. A escola é pública e fica na zona rural de Goiânia, devido a sua localização, as turmas têm números reduzidos de alunos, esse 9º ano, por exemplo, tem apenas 7. Infelizmente, a vantagem de ter um número tão pequeno de alunos esbarra no fato de as turmas serem multisseriadas, duas séries diferentes ocupando a mesma sala de aula e tendo aulas ao mesmo tempo com o mesmo professor. Esse é um detalhe da realidade do meu trabalho.

Foi nesse contexto que, desde o segundo semestre de 2015, iniciei um trabalho mais efetivo de “educação fora da caixa” com eles. Alguns desses alunos da foto foram os motivadores de uma grande frustração que me fez pensar em abandonar a sala de aula. No primeiro semestre de 2015 nós não conversávamos a mesma língua, eu não conseguia despertar interesse neles e, consequentemente, era muito desmotivadora e ineficiente nossa relação professor-aluno. Pouco mais de um ano depois, eu escrevo sobre o quanto eles foram responsáveis por momentos de muita satisfação na minha profissão, juntos, fomos de um extremo a outro. Há um texto aqui no site que fala sobre um episódio culminante desse período, Do Vale do Swat para a Vila Rica, a leitura de um livro que marcou o início de um tempo novo. Mas fato é que hoje chegou o dia dessa turma se despedir do Ensino Fundamental e, como a escola não oferece Ensino Médio, é hora de dizer tchau à escola e seus professores também.

O final desse ciclo teve um gosto especial para os meninos, eu expliquei isso no post anterior aqui do diário, para celebrar o ano e a
passagem para um novo ciclo, os meninos passaram o dia no shopping acompanhados por 4 professores. Embora morem em uma capital, o shopping não é um local comum à eles, o dia foi mesmo incomum e especial. E olha só a satisfação deles ao dividir a grana que conquistaram, enfim, chegou o dia de usufruir do fruto de um trabalho longo.

Uma professora de Ciências, uma de História e Geografia, um professor de Educação Física e um de Língua Portuguesa e Inglesa fizeram do dia de hoje suas aulas. Acompanharam os meninos durante o ano e de modos diferentes estiveram envolvidos em todo esse processo. Talvez alguém aí do outro lado questione sobre o fato de como um dia no shopping pode ser considerado dia de aula, qual a relevância disso para o currículo desses alunos, quais conteúdos eles aprenderam etc.

Em resumo eu diria que o aprendizado é um processo demasiadamente complexo e que não reconhece limites de sala de aula e não se limita a fórmulas. Eu acredito que aprendizagem é experiência. Sob essa perspectiva, sigo criando situações para que meus alunos vivenciem e aprendam da forma mais prática possível, criando memórias afetivas que os ajudem a trazer à tona tudo que um dia pretendi ensinar. 

 

 

Novas linguagens – Cinema Empreendedor

Neste ano inseri nas aulas de Língua Portuguesa a produção de vídeos. Usei esse recurso como forma de incentivar a produção escrita (alunos produzindo roteiros e textos), trabalhar a leitura e a dicção (alunos diante da câmera) e apresentar a eles novas possibilidades. A experiência foi positiva, nunca antes fui capaz de incentivar tanta produção de texto de qualidade em minhas aulas. Foram muitos textos sobre diversos assuntos, em diversos gêneros e, consequentemente, muitos vídeos.

Nesse meio ainda exercitamos a criatividade e o improviso, criando estúdios e fazendo milagres com equipamentos amadores que eu disponibilizei aos alunos para a produção dos vídeos. E como é rica essa experiência do “faça com o que tem”. Isso é criar oportunidades diante da realidade limitada de uma escola pública, o que integra nossa ideia de “educação fora da caixa”, uma vez que ultrapassa os conteúdos tradicionais ao mesmo tempo em que reforça o ensino desses e ainda promove/treina/desenvolve habilidades.

E já nas últimas semanas de aula, eu resolvi colocar pra girar a engrenagem que o Looking 4 Heroes tem criado em torno do meu trabalho, a engrenagem das parcerias. Contatei a ONG Cinema Empreendedor através de um amigo que integra a equipe e pedi que realizassem uma oficina  de cinema com meus alunos. Os meninos montaram uma proposta especialmente pra gente e em dois dias de oficina vi os olhos dos meus alunos brilhando diante de um mundo novo que se abriu diante deles. Mesmo depois de um ano de muitas conquistas profissionais dentro e fora da escola, essa oficina ainda foi capaz de me emocionar.

Com uma abordagem bem prática e para além das atividades do cinema, eles fizeram da experiência uma oportunidade de aprendizado e reflexão a cerca da satisfação pessoal, do sucesso, gostos pessoais, novas possibilidades profissionais e “o que eu REALMENTE quero ser quando crescer?”. Ensinaram técnicas, discutiram produções e, ao final, colocaram os alunos pra trabalhar, produziram filmes com equipamentos profissionais que a ONG utiliza em seu trabalho. A sala de informática da escola foi transformada em um set de filmagens, uma preparadora de elenco dividiu os alunos em equipes, cada uma responsável por atividades específicas daquele universo; operar a câmera, cuidar da iluminação, som, atuação, cenário etc.

Tentei ficar longe o máximo possível, quis testar a autonomia e o comportamento dos meus alunos, também quis livrá-los dos vícios da minha metodologia e deixá-los livres para experimentar o método proposto pelos oficineiros. Deu certo, deu muito certo. Quando vi meus alunos extremamente conectados e comprometidos com as funções que foram designadas a eles, tive certeza mais uma vez do quanto essa escola tradicional de conteúdos tradicionais os obriga a viver sonhos que não são deles, aprendendo coisas que, diante das particularidades de cada um, são só coisas mesmo. Eu acredito muito nos conteúdos tradicionais, muitos deles nos levaram a grandes descobertas e avanços, eu só não acredito na universalização do ensino e cobrança deles diante de um contexto como o nosso, no futuro pretendo desenvolver melhor essa ideia, neste post quero tratar apenas do fato que essa oficina de cinema levou meus alunos a conhecer habilidades que eles não sabiam que tinham.

Observando, me chamou a atenção um aluno que tem problemas de comportamento e concentração durante as aulas. Normalmente ele não demonstra interesse ou comprometimento com as tarefas propostas, mesmo as tarefas “fora da caixa”. Nessa oficina, porém, ele foi designado para cuidar da iluminação do set improvisado, e a semente germinou e se desenvolveu. O menino simplesmente se envolveu, concentrou na cena, ouviu as informações passadas a ele, pegou dicas e, como quem nasceu para operar aqueles equipamentos, brilhou.

Será que ele vai tornar-se um profissional de iluminação e optará por trabalhar no mundo das câmeras e das imagens? Não da pra saber. Talvez ele sucumba ao efeito manada das carreiras profissionais tradicionais e torne-se um vestibulando frustrado, um profissional frustrado, uma pessoa frustrada. Talvez, diante da força das cobranças à sua volta, ele trave um embate interno entre seguir sua vontade e se encaixar nos padrões e acabe desistindo de tudo. É tudo muito incerto, porém, creio que esse aluno vai poder dizer que, ao menos uma vez, a escola ofereceu a ele uma chance real, prática e, principalmente, relevante de aprendizado onde pôde experimentar a satisfação de investir em algo que tem a ver com quem ele é de verdade. Não que a escola precise mantê-lo exclusivamente em torno de si, ao contrário, ela precisa levá-lo a terrenos desconhecidos, mas não deve tentar fazer um peixe voar competindo com falcões.

Para quem quer fazer algo parecido com seus alunos, sobre o sucesso da oficina, algumas observações precisam ser feitas:

– Em primeiro lugar, foi disponibilizada a participação apenas a alunos que se candidatassem a ela, isso fez com que o aluno não fosse obrigado a estar em um lugar que não te interessa.

– O número de alunos também foi outro ponto chave. Se houvesse 40 alunos na sala, não haveria metodologia ou atratividade capazes de salvar a oficina. Neste caso foram apenas 12.

– É preciso sondar os interesses e afinidades da turma, mesmo quando se pretende apresentar novidades.

É isso, comentem, entrem em contato comigo, discordem, questionem, repercutam o assunto. 

Experiência empreendedora

Dia 09 finalizou a última semana de aula regular na escola, uma parte dos alunos foi dispensada e outra parte ficará mais uma semana para reforço de alguns conteúdos. Por se tratar de uma escola de Ensino Fundamental, a última semana de aula do ano é também a última semana de aula na escola para os alunos do 9º ano, no próximo ano eles ingressam no Ensino Médio e, por isso, precisam buscar uma nova escola. Para celebrar esse momento de passagem, a escola sempre providenciou alguma comemoração para os meninos. E quando falo em “providenciar”, eu digo em conseguir dinheiro e meios através de doações, já que escola pública mal recebe dinheiro para manter seu funcionamento básico.

Mas em 2016, eu aproveitei a onda de entusiasmo e motivação que tomou meus alunos e propus à turma do 9º ano trabalhar para que eles conquistassem dinheiro suficiente para ao final do ano ter uma formatura de Ensino Fundamental à escolha deles. Mesmo meio desconfiados eles aceitaram e, nesta última sexta-feira, 09/12/16, eles finalizaram a última atividade que deu a eles um valor suficiente para que tenham, no dia 19 deste mês, a comemoração que eles escolheram. A turma é formada por 7 alunos, nem todos se envolveram de verdade com esse desafio, mas tenho certeza de que os que se comprometeram levarão algo mais na bagagem.

Eu sou professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa, de forma direta, e tradicionalmente falando,  minhas disciplinas não teriam ligação com as atividades realizadas durante o ano com esse fim, mas como me coloco como um profissional de educação comprometido com um aprendizado para além dos conteúdos, creio que liderá-los nessa empreitada não me fez fugir das atribuições da minha profissão.

Foi muito gratificante ver esses meninos experimentando o gosto da independência e da superação. Eles venderam bombons caseiros fabricados pela mãe de um deles, também venderam combos pipoca + refrigerante em seções de cinema na escola e também organizaram rifas. Fizeram contas, pesquisaram fornecedores, exercitaram a criatividade e experimentaram a um sentimento muito comum na vida real, o “será que a gente consegue?!”. E pela primeira vez a escola não terá gastos com a formatura de um 9º ano, pela primeira vez uma turma saberá o custo desse evento e o quanto a diretora se esforçava nos anos anteriores para oferecer isso a eles, já que a escola não possui recursos para esse fim.

Diante de tudo que observei do lado dessa turma nesse desafio, eu reflito sobre a complexidade do papel da escola e do professor. O que será mais útil à esses meninos no futuro, minhas aulas sobre morfologia ou o aprendizado conquistado no cumprimento desse desafio?