O sonhador

Sonhos de Keviin

Meu primeiro contato com Keviin foi bem sem pretenção. Eu estava na sala da coordenação do Liceo 22 – Juan Diaz de Solís, conversando com a professora de literatura  Silvia Bocchi. Minha busca por histórias inspiradoras tinha me levado até uma escola do bairro La Teja, periferia de Montevidéu, até então mais uma das muitas escolas públicas dali. Keviin olhou pelo vidro da porta e entrou, sentou, me encarou, me cumprimentou com o beijo no rosto típico dos uruguaios – lá, seja entre dois homens ou duas mulheres é com um beijo no rosto que eles se cumprimentam – e ouviu da professora que era para ficar atento, pois, segundo ela, eu trazia boas novidades. Dos muitos alunos na porta que me observavam, ele foi o único que teve coragem de entrar.

Falante, Keviin se apresentou, falou orgulhoso do programa de rádio ao vivo que ele lidera para toda Montevidéu e me ensinou sobre uma importante poetisa uruguaia Delmira Agustini. Quando soube do motivo para eu estar ali, de pronto quis falar o quão importante foi a Fundação Cimientos e a professora Silvia Bocchi em sua vida estudantil. Apaixonado pela escola, ele disse que seu irmão mais novo, que ele carrega o nome tatuado no braço, irá estudar no Liceo 22 e seus filhos também, tamanho orgulho e confiança que ele sente por aquele lugar. Em um momento da conversa ele disse: “sinto que esta escola é um lugar onde os professores te ouvem e ajudam […] já estive ruim em 9 matérias, agora preciso recuperar apenas uma”.

Desenvolto e sem cerimônias ele saiu dali meu amigo de longa data, ele 16 anos, eu 31, tiramos fotos pelos corredores da escola, conversamos sobre música uruguaia e brasileira, artistas, coisas comuns a dois adolescentes, um de 16 e o outro de 31 anos. Dias depois ele me disse que entrou na sala da professora Silvia, onde me viu pela primeira vez, porque se alguém está conversando com ela naquela sala, certamente trata-se de uma pessoa importante, essa fala era carregada de significado, me explicou muito sobre a relação daquele aluno com a aquela professora.

A explicação e a atitude foram simples, mas demonstrou o quão importante são os passos daquela professora para aquele aluno, ela é uma referência para ele.

Professor é gente, e eu não fujo a essa regra, me identifiquei muito com o garoto expressivo e empolgado. Com toda a possibilidade que o Liceo 22 tem oferecido de identificar e exercitar sua habilidade de expressão, Keviin já sabe a carreira que pretende seguir, Jornalismo. Aproveitando a deixa, pedi que Keviin escrevesse algo sobre ele para ser publicado, vi que ele falava muito bem e não era sem motivos que havia se tornado locutor de um programa ao vivo transmitido pelo rádio para toda a capital do seu país. Ele prontamente pegou meu iPad e escreveu:

“Kevin Dodanim Saldivia Franco, data de nascimento: 16 de agosto de 1999, idade: 16 anos

Eu sou do Cerro (bairro da periferia de Montevidéu) vivi lá toda a minha vida, minha família é formada por meu pai, mãe e irmão de 6 anos. Eu trabalho em uma estação de rádio comunitária do Liceo 22 Juan Diaz de Solís, lidero e tento mostrar aos nossos ouvintes que nem todos os jovens estão perdidos e que não se DEVE colocar um bairro inteiro no mesmo saco, lá há jovens que estão em situações econômicas difíceis, procurando lidar melhor como suas famílias. A sociedade é como uma moeda que tem dois lados e eu tento mostrar a outra face, a face dos TRABALHADORES, carinhosos e lutadores.”

Kevin e eu pelos corredores do Liceo 22

O garoto de apenas 16 anos já tinha se comprometido com uma missão socialmente responsável, ele quer desmistificar os rótulos que colam em garotos que, assim como ele, nasceram e foram criados em bairros de periferia marcados pela criminalidade e penalizados pela ação falha do estado. Ele não queria ser julgado de forma rasa e preconceituosa, e estava me dizendo que seu compromisso é trabalhar para que os demais jovens de seu bairro também não fossem.

Não ficou claro pra mim se esse sentimento de compromisso com seu bairro era algo que já existia em Keviin ou se veio através da transformação promovida pela educação que ele recebia na escola, mas em seus depoimentos ele deixava sempre muito claro que a professora Silvia o havia ajudado a ter certeza de que a educação era um meio de alcançar seus objetivos. Keviin havia descoberto seu dom com as palavras nas aulas de Literatura, já era bem claro pra ele que expressar seus pensamentos coerentes falando ou escrevendo era uma arma que ele pretendia usar para sua realização pessoal e para defender outros meninos em situações parecidas com a dele.

Aos 16 anos o adolescente de escola pública acabava de alcançar um feito inédito em seu país, liderando um programa de rádio, ele, sua professora e seus colegas acabavam de ser reconhecidos pela Câmara Uruguaia do Livro como membros da Legião Nacional do Livro, na publicação Silvia e seus poderes de professora a gente explica melhor a importância desse prêmio. Trata-se de um feito realmente notável para um aluno que há bem pouco tempo não encontrava motivação para os estudos e ia mal em 9 disciplinas, agora ele se tornara nacionalmente reconhecido como um incentivador da leitura.

Após a cerimônia de homenagem da Câmara Uruguaia do Livro, Keviin escreveu em sua página pessoal à Silvia:

“Bem, estamos aqui haha, Primeiro de tudo obrigado a Sra Silvia por me dar um grande ano ao lado do meus companheiros de Rádio, Noti (jornal impresso que os alunos produzem no colégio) e Vida, obrigado por ser a pessoa que está comigo e com os meus [companheiros], Obrigado por ser mais do que uma Professora de ser uma ouvinte, por saber o que aconselhar, saber dar conselhos e acima de tudo por ser um amiga :); Você é uma das poucas professoras que conheço que se pode dizer que é uma amiga infalível e eu tiro meu chapéu como já disse repetidas vezes a você, provou para mim e meus companheiros de equipe que se pode fazer grandes coisas se Você tem muita vontade E RESPONSABILIDADE !!! Tendo tido você em todos esses anos como professora, eu quero dizê-la que te admiro muito como pessoa e eu estou muito orgulhoso de dizer que te conheço e apesar de não ser mais seu aluno sei que você é minha professora, Amiga e Aliada …. OBRIGADO E MIL VEZES OBRIGADO por me deixar fazer parte deste grande ano com o lindo Grupo do Actualizate 22 e abrir-me muitas portas e deixar-me fazer algo que gosto de verdade… Mais uma vez, obrigado e eu quero dizer que é como um a segunda mãe para mim, minha amiga Silvia Bocchi”

Fonte: Página pessoal de Keviin Saldivia

Como resposta e retribuição à homenagem pública feita por Keviin, Silvia responde deixando bem claro o caráter pessoal que faz toda diferença em seu trabalho, ela se sente realizada profissionalmente, ela diz fazer o que gosta, e faz toda a diferença pra um adolescente receber instruções de um profissional seguro e não vitimizado. A atual situação da educação no Brasil e em vários outros países faz com que o aluno não perceba orgulho em seus professores, o que dificulta fixá-lo no papel de líder quando este se sente vítima, desvalorizado e desprestigiado. Nesse ponto reside outra postura heroica de Silvia e de outros professores pelo Brasil que, mesmo diante da atual situação de desvalorização da educação, conseguem transmitir altivez e orgulho aos seus alunos. Esse assunto merece ser tratado com mais detalhes e em mais palavras, e isso será feito em uma postagem futura.

Mas voltando aos feitos de Keviin, no vídeo abaixo, ele, os demais alunos que comandam o Actualizate 22 e os professores Daniel González e Silvia Bocchi vivem um momento único, de coroação de, pelo menos, cinco anos de trabalho. No imponente Teatro Solís, na capital Montevidéu, são homenageados pela Câmara Uruguaia do Livro em uma solenidade acompanhada pela imprensa, artistas, políticos e outras importantes figuras.

Gracias Cámara Uruguaya del Libro, Municipio A, Consejo de Educación Secundaria, Fundación Cimientos, y organizaciones…

Publicado por Liceoveintidosmontevideo Oeste em Sábado, 19 de dezembro de 2015

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Durante a cerimônia de entrega do prêmio, Keviin tem, mais uma vez, a oportunidade de fazer uso da grande habilidade que a escola o ajudou a desenvolver. Toda desenvoltura dele com a palavra é resultado prático da educação eficaz que ele vem recebendo na escola. Mas o que fez de Keviin o líder do programa, o que o faz colher frutos que talvez outros alunos daquele Liceo 22 não conseguem colher?

Como professor, sei que uma sala de aula pode ser palco de uma diversidade de gêneros, gênios, talentos, culturas, potencialidades e habilidades que não caberia em um Maracanã em dia de Fla-Flu. O Liceo 22 no bairro La Teja não é diferente, neste sentido, de outras unidades de ensino em qualquer outro lugar. O Keviin, com suas particularidades, com seu acervo particular de experiências e vivências, no grau de maturidade que se encontra, com sua forma individual e única de se relacionar com o mundo, encontrou ali o ambiente ideal, com as variáveis ideais para que os frutos que ele colhe hoje fossem cultivados. Quando se fala de educação, não existem regras, mesmo tendo as condições ideais, os bons resultados não são assegurados, embora sejam mais possíveis que em condições não ideais. Da mesma forma, situações como as de escolas públicas, de bairros de periferia, de países em desenvolvimento, longe de oferecer o básico a seus alunos podem ser palco de histórias de protagonismo, onde jovens, como o Keviin, aproveitam o pouco que lhe são oferecido e assim alcançam o sucesso. Aqui reside a grandeza da história de Keviin, mesmo com uma professora que busca de inúmeras formas ir além do que está disponível e oferece aos seus alunos experiências e um tratamento diferenciado, parte de Keviin a contrapartida que completa esse investimento, reside nele a outra metade que, em contato com as sementes lançadas no Liceo 22, floresce e dá frutos cada vez mais promissores.

Este adolescente admirável com considerável capacidade de expressão demonstra resultados que vão além de boas notas e aproveitamentos em atividades realizadas em sala de aula, Keviin se destaca na escola, entre os amigos, no bairro e no seu país. Ele é nada menos que o único locutor de rádio de 16 anos de todo o Uruguai, aluno de uma escola pública, que superou as dificuldades próprias de um adolescente de bairro carente, a ser reconhecido como incentivador da leitura em um país que já possui uma ótima relação com o livro. É nesse tipo de educação que o projeto Looking4heroes está pautado, os heróis a que procuramos possuem esse caráter transformador além dos limites da escola. Não são resultados de aproveitamento em testes que nos atraem, mas pessoas que agem de forma prática, transformadora e positiva na vida de outras pessoas, na escola, no bairro, na cidade, no país, no mundo.

Nossa passagem pelo Uruguai nos possibilitou ter a certeza de que existe um movimento silencioso e constante nesse sentido sendo feito em lugares onde só a educação pode promover uma transformação eficaz e definitiva. Aliás, independente da coordenada geográfica, só a educação é capaz de transformar positivamente, eficazmente e definitivamente uma realidade.  Keviin, assim como a professora Silvia Bocchi são os primeiros exemplos de personagens que promovem essa transformação em Montevidéu, acompanhe nossos canais e conheça outros.

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