img-20161017-wa0022O quarteto e seu time fantástico!

No alto de uma rocha, na orla da cidade de Lima, com o Oceano Pacífico ao fundo e os portões voltados para a Avenida del Ejercito, fica o histórico Puericultorio Pérez Aranibar, um imponente complexo de prédios somando mais de 13,000 m² construídos em uma área de 108,000 m².

O lugar nasceu do sonho de um médico, o Dr Augusto Pérez Aranibar (1858-1958). Em 1917, ele pensou em um local de grandes proporções para receber e cuidar do grande número de órfãos que o país até então não tinha como assistir. Em março de 1930 o lugar foi inaugurado e sustenta até hoje o título de maior orfanato na América Latira, com mais de 80 anos de história, atualmente atendendo cerca de 400 internos de ambos os sexos com idades entre 0 a 18 anos. Lá, eles têm acesso à educação, saúde, alimentação, recreação e proteção. Devido a diminuição do orçamento disponível para manter a instituição, parte do orfanado está desativada, o que diminui muito sua capacidade. Em 2015 foi lançado um livro em comemoração aos 85 anos do Puericultorio Perez Aranibar, para mais informações e imagens, clique aqui.

A Dimensão do Upside Down.

Quando desci do ônibus do outro lado da rua, a primeira visão foi empolgante, eu estava indo encontrar um grupo de escoteiros que realizavam atividades recreativas e educativas com crianças em um orfanato, até então era essa toda informação que eu tinha conhecimento. Ao descer do ônibus, do lado oposto da rua eu via um muro que não foi possível identificar facilmente o início ou o fim. O portão, imponente como tudo mais que estava por detrás dele, a construção, quase centenária, abrigava em suas cores e linhas certa medida de melancolia mas o céu predominantemente cinza de Lima dava a pitada a mais de melancolia àquele lugar.

Assim como as escolas que visitei no país, o Puericultorio Pérez Aranibar guardava um silêncio improvável para um lugar que abriga crianças. Andamos, andamos, cruzamos pequenas praças internas, corredores e só então avistei as primeiras crianças. Era um grupo de meninas de 3 anos de idade. Roupas quase idênticas, todas com o mesmo corte de cabelo.

O que vi depois confirmou minha impressão melancólica do local, na verdade, as paisagens seguintes entre os muitos espaços que atravessei deram-me uma noção de um lugar triste, impessoal e à parte do mundo que existe do outro lado daqueles muros. Um bosque seco, corredores vazios, passeios de ladrilho, janelas fechadas, portas entreabertas, e o vazio incomum para um lugar habitado por tantas crianças. Trouxe comigo a impressão de que as crianças peruanas são muito silenciosas. Acostumado ao barulho das escolas brasileiras, me chamou a atenção o silêncio das escolas de Lima, e agora o silêncio daquele orfanato também me soava incomum.

Mas diferente da escola, o silêncio ali combinava com o local. Tudo parecia ter sido escolhido para compor uma cena triste, do céu cinza às plantas secas. O que me fazia pensar o tempo todo sobre quão angustiante deveria ser a vida ali dentro e como os moradores daquele lugar não deviam ter a vida atormentada por uma espera sem fim. Era tanto espaço a ser tomado por barulho e movimento de crianças, um playgroud bem conservado e mesmo os jardins e o bosque secos, poderiam se tornar ricos cenários para crianças de mentes férteis e vidas pulsantes. Ao contrário, a lógica ali dentro parecia ser outra, invertida, como em um mundo ao contrário.

As janelas de vidro enormes me davam a impressão de que eram para caber muitos rostinhos olhando para fora esperando alguém que os tirassem ali de dentro. 

Vida pulsando…

E diante dessa primeira impressão, avistei ao longe, em uma quadra bem ao fundo, em volta havia um playground com alguns brinquedos, e ao centro, um grupo de cerca de 50 pessoas. Entre as crianças e adolescentes, adultos usando um uniforme azul se destacavam. Cheguei até ali através do convide feito pelo professor Jorge Cárdenas, ele queria me apresentar um grupo de escoteiros que realizavam trabalhos voluntários sob a liderança de um amigo pessoal seu, o Willian. Depois de tanto contato com atividades de voluntariado e instituições como asilos, orfanatos e escolas, a gente custa se surpreender com algo novo, mas algo nesse dia me surpreendeu muito com o que presenciei, talvez a grandiosidade daquele lugar e o clima melancólico em que ele era envolto. Não sei bem identificar, mas vi e senti ali algo muito diferente do que tinha visto até então.

 Em um primeiro m20161023_125257omento, apenas observei. As crianças estavam organizadas em grupos, 5 ou 6, cada grupo tinha uns 3 escoteiros ajudando a realizar atividades. Vários materiais eram utilizados por eles, de cabos de vassoura a jornais e revistas. Em uma das atividades, a que mais me chamou a atenção e a que mais acompanhei de perto, as crianças tinham como tarefa encontrar notícias em jornais ou revistas e relacioná-las às leis dos escoteiros que estavam aprendendo. A ideia era fazê-los perceber como o que estavam aprendendo através daquele contato se relacionava intimamente com a vida fora dali, fosse de forma positiva ou negativa.  

Depois de observar, fui apresentado aos responsáveis por aqueles encontros de domingo que aconteciam já há 4 anos: Fanny Núñes Gamboa, Willian Rivera Molina, Moisés Nación Brioso e Victor Peña, um quarteto fantástico. 

“Quando você tem mais de 30 anos dentro do movimento escoteiro, tens o dom de ver os rostos por trás das bandanas”. Willian Molina

Com mais de 30 anos dentro do movimento escoteiro, Willian é um dos líderes do grupo que realiza atividades semanais com as crianças do Pérez Aranibar. Foi ele quem me deu mais informações sobre o trabalho. Segundo ele, quando chegou ao Puericultorio, as crianças não aceitavam o contato com adultos. Alguns se sentiam traídos, outros haviam sido abandonadas e mesmo violentados, e isso fez com que a imagem que nutriam de pessoas mais velhas não fosse positiva. Ele diz que não foi fácil se aproximar daquelas crianças, o que exigiu um trabalho de aproximação que durou cerca de um ano, até que houvesse uma relação de confiança, uma imagem restaurada.

Nesse trabalho de aproximação, cartas foram enviadas periodicamente, aos poucos as cartas foram ganhando respostas, e isso criava expectativa para um encontro pessoal. Segundo Willian, no início eles não permitiam nem mesmo que os voluntários dirigissem palavras à eles, toques então, nem pensar, devido aos traumas que haviam sofrido.

“Os fizemos sentir importantes, e isso não foi trabalho de um dia, mas um investimento para a vida toda” 

Luis Becerra, Italo Nación, Diana Vargas, Martin Luis, MartinAyon, Yesenia Contreras e Taichi Tsujino.

Contrariando expetativas…

O dia tinha tudo para fixar uma lembrança triste daquela experiência, mas ao contrário do que as expectativas apontavam, tive ali um dos grandes encontros da viagem. Gente praticando a empatia, investindo em pessoas e amenizando os contornos frios daquele local.  

Em semanas com 7 dias, anos com mais de 50 semanas e vidas permeadas por esperas (ou marcadas pela desistência), um domingo feliz pode parecer pouco, mas pode ser tudo que muitos possuem, é o caso das crianças que conheci lá. E pela forma como vi aqueles meninos e meninas sendo chamados pelos nomes, recebendo o mínimo de tratamento individualizado, se relacionando com pessoas interessadas neles individualmente, acredito que sem aquele um dia na semana, os últimos três anos teriam sido de menos aprendizados e de tempo mais moroso e cinza.

Mais que recreação…

O trabalho voluntário, além de ainda pouco difundido, é também muito mal compreendido no Brasil. Para muitos, o trabalho do voluntário é algo sem planejamento, sem objetivos definidos, e realizado por quem tem muito tempo sobrando e não sabe muito bem como preencher essa lacuna, um grande erro.

O voluntário tem um compromisso com o outro, e não visa fins lucrativos para desempenhar com qualidade seu papel. A falta do vínculo financeiro não diminui seu compromisso nessa relação, e foi o que pude me certificar mais uma vez através desse encontro. Já há 3 anos, esses escoteiros realizam um trabalho sistemático no Puericultorio Pérez Aranibar, de um grupo de cerca de 50 voluntários, nem todos eles são assíduos, mas entre esses existem os que mantêm as atividades funcionando semanalmente, no dia em que estive com eles, eram 13.

Eles produzem as atividades, reúnem os objetos a ser utilizados, organizam passeios fora do orfanato e até ajudam a encaminhar a vida dos que, aos 18 anos,  precisam retomar suas vidas fora dali.

Um diferencial que percebi no trabalho desenvolvido lá foi um cuidado além de simplesmente socializar e entreter. Em conversa com Fanny, Willian, Moisés e Victor, vi que eles estavam o tempo todo falando em educar para a vida fora do orfanato, as atividades que acompanhei no dia eram carregadas de ensinamentos e fazendo uso de habilidades escolares, também.  

Outro ponto importante que percebi no relato deles foi o planejamento de suas ações, os objetivos que pretendem alcançar norteando as ações que desenvolvem.  Imagine só voluntários que passam um ano de suas vidas escrevendo cartas com o intuito de criar um vínculo e só então iniciar um trabalho presencial que já dura 3 anos.

Nem toda a melancolia daquele local foi capaz de apagar as cores daquele encontro que tive o prazer de presenciar em um domingo de novembro. Incríveis aquelas horas, fantásticas aquelas pessoas. 

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