Depois da mobilização aqui no Brasil, enfim os kits escolares chegaram às mãos das crianças da Escola Primária 17 de Setembro em Luanda, Angola. Foi no dia 20 de setembro que depois de passar uma manhã inteira a procura dos melhores preços em mercados populares que conseguimos, com a ajuda de dois amigos locais, Dúlcio e Diogo, realizar a compra de 1130 cadernos, 1152 lápis com borracha e 80 apontadores.

As doações vieram pelo site Vakinha Online, depósito em conta e pessoalmente, não foi possível presentar as cerca de três mil crianças da escola mas ainda assim as expectativas foram superadas.  

Como a quantidade de kits não era suficiente para todos os alunos da escola, decidimos priorizar os alunos das séries iniciais. Entregamos pessoalmente a uma turma apenas e pedimos que a diretora e coordenadora da escola distribuíssem os demais, já que os alunos menores estudavam no turno matutino e com a demora em comprar os kits só conseguimos chegar à escola no período vespertino.

Galeria dos colaboradores 

A entrega dos presentes foi emocionante, escolhemos uma turma para fazer a entrega pessoalmente e ao entrarmos na sala as crianças ficaram de pé e nos cumprimentaram em coro. Depois de uma explicação sobre o motivo de estarmos ali e como aqueles presentes foram adquiridos, a coordenadora pediu para que os alunos que não tinham lápis levantassem as mãos, quase todos se manifestaram. Realmente os materiais chegavam e um ótimo momento. A sala não era a mais cheia, mas abrigava bem mais alunos que as salas já lotadas aqui no Brasil. algumas crianças estavam sentadas em taboas no chão. 

Impressões

Ao nos ver aproximar na porta da sala de aula os alunos levantaram-se e disseram em coro uma frase que não consegui entender, mas pelo visto era uma prática adotada pela escola para receber visitas. A disciplina das crianças era evidente, ao menos diante de visitas eles estavam se comportando muito bem, outra coisa que chamou a atenção foi o olhar deles, exalava obediência. 

Outro aspecto que atraiu nossa atenção foi a inventividade de professores e equipe diretiva diante da falta de recursos. Muito orgulhosa a coordenadora de atividades extra escolares, Luisa Gonçalves, mostrou em seu celular uma série de fotografias e vídeos das atividades diversificadas que eles realizam na escola; jogos pedagógicos, produções artísticas, dança, uma exposição de poemas e desenhos etc. Assim como nas outras escolas por onde o Looking 4 Heroes já passou, mais uma vez foi possível constatar a qualidade e comprometimento de profissionais da educação pública que, muitas vezes, operam acima das condições que são oferecidas a eles e seus alunos.

Cartas

Além do envolvimento na campanha para arrecadar dinheiro para a compra dos presentes, os alunos da Escola José Carlos Pimenta, aqui no Brasil, estiveram estudando em História, Geografia e Língua Portuguesa sobre o país das crianças que receberiam seus presentes, e junto com os kits escolares foram também cartinhas. Uma delas foi da Ana Luiza de 10 anos, aluna do 5º ano do Ensino Fundamental. 

Faz parte dos nossos projetos a inserção de conteúdos tradicionais em situações reais de uso dos mesmos, especialmente as cartas são um gênero textual bem utilizado em nossas ações como forma de levar os alunos a se expressar e também uma forma de avaliar o grau de envolvimento deles com as informações a que tiveram acesso nas aulas sobre Angola, nesse caso. Mas nesse caso específico, foram os alunos que se mostraram interessados em enviar cartas, antes mesmo de ser apresentado a eles essa possibilidade. Entre todas as produções que foram entregues, escolhi uma para ser lida e a Tatiana, 10 anos, foi a escolhida para ler para a turma. Ao final ela ainda quis fazer um agradecimento pela carta e presentes, mesmo nervosa ela conseguiu dividir com a gente sua gratidão. 

Tatiana é uma criança que não viveu na Angola colônia de Portugal e também não assistiu a guerra civil que assolou seu país e que acabou apenas há uma década e meia, mas ela ainda é vítima de um processo de colonização com fim tardio e uma luta interna pelo poder. A educação é hoje a esperança de dias melhores para ela e seus mais de três mil colegas de escola. Nosso desejo com esse projeto foi, muito mais que oferecer cadernos, incentivá-los nessa busca por reconstruir sua terra sob o alicerce firme da educação.

Vamos acompanhar a Escola Primária 17 de Setembro e torcer para que as crianças por trás desses sorrisos tímidos sejam vitoriosas com seus cadernos e lápis nas mãos.