Fugindo do terror, ele construiu muralhas de livros.

As histórias procuram quem as contem…

Nessas duas edições da Expedição l4h fui levado a histórias incríveis de formas igualmente incríveis. No Uruguai, cheguei à escola que um dia após minha chegada ganhou o mais importante prêmio da cultura naquele país. No Peru, sem saber, buscava contato com o professor que fazia parte de uma seleção de personagens escolhidas pelo governo por suas histórias inspiradoras. Não bastasse esse primeiro contato, já descrito aqui no site na história do professor Jorge Cárdenas, chegou até mim, ainda no Brasil, a história de Ismael Soto Rica. Como costume dizer, quando a gente decide contar histórias, elas encontram meios de chegar até nós. Lendo postagens em uma rede social, cheguei ao comentário de uma pessoa que falava sobre um taxista que pedia doações de livros em Lima, como não conhecia o dono do comentário tratei de começar alí os contatos, assim tive a oportunidade de conhecer esse personagem da vida real com uma história digna daqueles filmes mais inspiradores. Através do senhor Maximo Kinast Aviles, diretor da ONG Fundación Ciencias de la Documentación, marquei um encontro e no dia 24 de outubro de 2016, uma segunda-feira de manhã, bati um papo com um dos caras mais simples e fortes que eu conheci.

“Meu povo foi massacrado pelo terrorismo e isso foi traumático. Muitos dos meus familiares e amigos morreram, há crianças que nunca conheceram seus pais.”

Salvo pelos livros…

Ismael nasceu e cresceu em uma das regiões mais isoladas do Peru. Distante geograficamente das cidades mais desenvidas do país e assolada pelo terrorismo, Ayacuchano viu seu ilustre morador se mudar em busca de segurança e melhores condições de vida em Lima ainda muito jovem.

Chegando à capital do seu país na condição de refugiado, teve sérios problemas de comunicação, pois sabia apenas o dialeto falado na região de onde veio, isso é muito comum no Peru, regiões mais isoladas mantêm o uso de línguas dos povos originais. Sem saber falar Espanhol, Ismael sofria “bullying” e era discriminado pelos colegas de escola. Aconselhado por uma professora, ele passou a ler livros em espanhol, assim aprendeu a língua. A partir desse contato Ismael teve o desejo de levar livros ao seu povo, para que seus conterrãneos não sofressem o mesmo que ele, “comecei enviando mapas e logo enviei livros que usava na escola”.

Origem humilde…

“Ismael Soto Sicca é uma pessoa sensível, de um sorriso limpo e tímido. Da a impressão de não ter dado conta das coisas enormes que tem conquistado e que partiram de um sonho admirável: dar a sua terra natal, Ayacuchano, Qasanqay, uma biblioteca”, é assim que um jornal peruano introduziu a história desse herói, a quem dedicou uma página inteirinha da publicação impressa de 8 de setembro de 2015.  

Como tudo começou…

Em 2006, durante uma corrida em seu taxi para o senhor Máximo Kinast, Ismael falou sobre seu desejo de reunir livros para criar uma biblioteca no vilarejo de onde veio. Dessa conversa veio a primeira doação de livros, o passageiro ainda conseguiu livros em uma universidade de Madrid e de outra na Colômbia através de amigos. A primeira remessa de livros foi entregue pessoalmente por Ismael e seu agora amigo Máximo, na ocasião, uma grande festa foi organizada na comunidade de onde veio.

“Foi muito bonito e me senti  emocionado de ver tanta gente esperando, me sentí muito orgulhoso e com muita esperança porque levava livros ao meu povo.”

Após a criação da primeira biblioteca, em Ayacuchano, Ismael ainda criou mais sete bibliotecas em outras regiões carentes do Peru e então registrou oficialmente uma ONG chamada Una Biblioteca para mi Pueblo UBiP, através dela ele já chegou a marca de 10 toneladas de livros arrecadados em uma dezena de países.

Embora tenha conquistado notoriedade em seu país e receba convites para dar palestras e participar de eventos, ele continua trabalhando como taxista, e eu tive o prazer de andar com ele em seu táxi. Em sua ONG trabalharam diversos voluntários ajudando na arrecadação de livros, catalogado e separando os títulos por gênero e montando mais bibliotecas, seu exemplo inspira e atrai pessoas dispostas a levar a educação a comunidades carentes em todo o país. 

Em Ayacuchano, Qasanqay, onde a primeira biblioteca foi criada. (Fonte: UBiP)

E-mail: informes@ubip.org

Pra quem quiser acompanhar o trabalho de Ismael e sua ONG Una Biblioteca para mi Pueblo (UBiP), aqui vai os linkes dos canais:

Facebook: www.facebook.com/ubip.org

Site: www.ubip.org

E-mail: informes@ubip.org

O que faz um herói…

Em uma conversa de cerca de uma hora, entre o apartamento do senhor Máximo e algumas ruas de Lima, pude conferir de perto a simplicidade e senso de coletividade comuns aos personagens que descrevo aqui no site. Ismael parece não ter noção da grandiosidade de seu ato, ao mesmo tempo se mostra muito consciente da importância das bibliotecas que ajuda a criar.

Em nossa conversa, sitou Arthur Rimbaud e alguns outros autores de peso, ele não somente cria bibliotecas más é também um amante da leitura e, embora não tenha concluído os estudos, é um homem culto. Ismael entra para o hall de heróis do Looking 4 Heroes quebrando a previsibilidade e inspirando boas ações. A educação é bem de todos e não está restrita a professores e escolas, acho que é isso que Ismael ensina com sua história. 

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