Da esquerda para a direira: Keviin, Mauricio, María, Brian, Prfª Silvia, Vanessa, Mati e Prof Daniel.

Silvia Boochi, Daniel González e “os chiquilines”.

Uniforme do Ciclo I

A educação antes do Ensino Médio no Uruguai é divida em três ciclos. O ingresso no ciclo I é obrigatório a partir dos 4 anos, nos dois primeiros ciclos os alunos estudam em escolas, no primeiro ano do primeiro cilco eles usam um uniforme de tecido quadriculado fofo, do tipo jaleco, na cor azul (o da foto ao lado), no segundo ano o uniforme é no mesmo modelo e tecido, mas da cor vermelha, do terceiro ano do primeiro ciclo até o final do cilco II o uniforme é da cor branca, nas três variações com direito a uma gravata azul muito charmosa. No último ciclo o uniforme é camiseta e calça, nada fora do usual no Brasil, por exemplo. No ciclo III as instituições de ensino são chamadas de Liceos. Cada ciclo é concluído em 3 anos, num total de 9 anos, correspondente ao nosso ensino básico e fundamental. Esses uniformes dos dois primeiros ciclos e mais o computador a que todo aluno de escola pública por lá tem direiro se tornaram símbolo da educação no país e fora dele.

Pelo que pude perceber, a educação por lá é bastante voltada para questões humanas, e possui, inclusive, uma disciplina onde o aluno escolhe o assunto a ser estudado. Na ECA, Espaço Curricular Aberto, os alunos podem propor temas de interesse: insegurança, sexualidade, arte, teatro, música, expressão, discutir problemas de classe, problemas que estejam acontecendo com o grupo ou com familiares etc. Alguns alunos me relataram que no início do ano eles discutiram nessa disciplina uma polêmica envolvendo o cumprimento das roupas que as meninas deveriam usar na escola, mas também já haviam utilizado o mesmo espaço para ensaiar coreografias. Deu pra sentir que este espaço ajuda a aliviar tensões e desenvolve a capacidade de resolver conflitos. Ouvi alunos muito satisfeitos sobre a oportunidade que a ECA proporciona nos Liceos.

Embora o país tenha avançado muito na oferta de vagas e permanência dos alunos nas séries iniciais, nos últimos anos o Ministério da Educação no Uruguai tem intensificado esforços em diminuir o índice de evasão escolar nos ciclos II e III, os números são impressionantes. A porcentagem da população que concluiu o Ensino Médio, até 2012 era de apenas 48,9%. Segundo Lucia Furtado, funcionária da Fundação Cimientos, “a maioria dos pais desses alunos não chegou ao segundo grau, boa parte desses adolescentes, é a primeira geração da família a ingressar no ciclo III.

O grande desafio dos professores, e isso foi possível de perceber nos esforços da professora Silvia Bocchi, é manter os alunos firmes nos estudos. Toda a atual geração de alunos secundaristas uruguaios tem predominantemente pais que não concluiram os estudos, trabalhos como os realizados no Liceo 22 pelos professores Silvia, Daniel e seus colegas, com a ajuda de toda uma rede de parceiros, promovem a incrível mágica de fazer com que jovens, como os da foto no topo desta página, criem vínculo real com a escola e creditem no estudo a chave para mudar positivamente suas realidades.

Liceo 22

Sobre o trabalho em rede promovido pelo Liceo 22, a professora Silvia me apresentou este fluxograma da imagem abaixo. Nele é possível ver como a escola se cercou de parceiros de toda ordem para ampliar seu raio de ação, ser atrativa e relevante, sem descuidar de sua obrigação pedagógica. Em uma conversa com uma professora do cilco I de uma escola do bairro La Teja, ouvi duras críticas ao currículo que, segundo ela, não estava de acordo com as demandas dos jovens daquele bairro. Na imagem abaixo é possível ver que os professores do Liceo 22 procuraram, dentro do possível, adaptar a forma e o conteúdo apresentado a seus alunos, convidando para dentro da sala de aula parceiros capazes de tornar a escola mais eficiente e lincada à realidade do bairro, da cidade, do país, do mundo.

Liceo 22 e o trabalho em rede

Esse esforço por parte dessa equipe já gera frutos, a relação dos jovens com ao Liceo e a mudança de postura com relação a busca pelo conhecimento são parte importante do que a escolha começa a colher. Em todos os dias em que estive em contato com professores e alunos, pude ouvir um carinhoso ‘los chiquilines” sendo repetido exaustivamente pela professora Silvia. Pelo que pude entender, trata-se de algo como “os pequenos”, talvez com uma conotação mais carinhosa. Assim ela se referia a todos os alunos, mas era facilmente perceptível que um grupo em especial era razão de grande orgulho para ela, o que não era difícil de explicar.

O grupo da foto lá no topo do texto, esses 6 alunos, e mais alguns outros que infelizmente não pude conhecer, há 5 anos ajudam essa professora de Literatura a disseminar a cultura da leitura e do gosto pelo conhecimento. Eles são resultado de esforços somados para que os números referentes a evasão escolar no Uruguai fossem reduzidos. Com desafios pessoais a serem vencidos, Keviin, Mauricio, María, Brian, Vanessa e Mati são frutos da soma de esforços da heroína Silvia e seus poderes de professora, de outros professores igualmente comprometidos, como o professor de História, Daniel González Uribarrí, do Liceo 22 e de parceiros como a Fundação Cimientos.

Esses alunos, que estão em fase de conclusão do ciclo III, formam um time que vem driblando os problemas sociais do bairro em que vivem, estão vencendo o preconceito por morarem onde moram, contornando as dificuldades de uma rede de ensino ainda em desenvolvimento e carente de recursos, contrariando um histórico familiar e uma cultura que até então não privilegiavam o estudo e se mostrando com maior preparo diante das lutas próprias de um adolescente em qualquer outra parte do mundo.

Por essas e outras eles são dignos de figurar no nosso hall de heróis, pois possuem testemunhos pessoais que merecem ser contatos afim de reconhecimento de seus esforços e a título de motivação de professores e alunos que encontram-se vencidos pelos limites e dificuldades impostos a eles.

E depois de tanto comprometimento, o trabalho desses garotos será nacionalmente coroado em Montevidéu no próximo dia 17 de dezembro, quando eles serão reconhecidos publicamente pela Câmara Uruguaia do Livro como membros da Legião do Livro. Homenagem concedida pela primeira vêz a pessoas fora do círculo da política ou da cultura. Feito inédido e digno dos esforços lançados pela professora Silvia e seus colegas e prontamente correspondidos pelos alunos.

Nos últimos dias os alunos têm cumprido uma maratona de visitas a emissoras de TV e Rádio no Uruguai em função do reconhecimento do trabalho desse time. E é mágico ver uma professora e seus alunos de escola pública em um bairro de periferia alcançarem esse grau de notoriedade por resultados alcançados com iniciativas tão simples e baratas.

Nas próximas semanas as histórias individuais de alguns desses 6 heróis serão compartilhadas aqui no site. Seus desafios e vitórias, seus  sonhos e medos, frustações e orgulhos, depoimentos pessoais, fotos e contexto familiar em que vivem. A história individual de “los chiquilines” estará disponível em breve aqui e nas redes sociais do Looking4heroes para que tenhamos mais histórias inspiradoras a dispor de nossa motivação pessoal.

E o convite continua aberto, acompanhe os próximos capítulos desta viagem inesquecível “a las tierras de Pepe Mujica“.

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