img-20161017-wa0022 JORGE FERNANDO CÁRDENAS CANCHANYA

Nossa busca

O Looking for Heroes completa seu primeiro aniversário em sua segunda expedição. E assim como na primeira viagem, fui atraído para grandes histórias. Na verdade, histórias muito simples, grandes apenas na força que carregam. Essa minha busca por heróis já dura um ano, ainda não tem forma definida e segue de forma bem intuitiva, mas é dessa forma que venho sendo levado a personagens reais que trazem em comum entre si a simplicidade. A professora Silvia e seus alunos de uma escola na periferia de Montevidéu, o professor Calixto em Ituiutaba-MG ou mesmo minhas experiências com meus alunos em sala de aula não são histórias difíceis de encontrar pares Brasil afora, e é nesse fato que eu encontro o motivo para contá-las, para que tantos outros heróis se reconheçam em nossos personagens reais. 

Essa simplicidade, de certo modo, ajuda todo mundo perceber que em algum ponto de suas vidas, todos temos certa medida de heroísmo. Todo mundo trava alguma luta, todo mundo estende a mão a alguém, e quando se trata de educação, em meio a tantas notícias desanimadoras, há fatos incríveis acontecendo em lugares onde compromisso, informação e criatividade estão sendo usados como meios para amenizar dificuldades. 

As histórias procuram quem as contem

Há seis meses dei início à um trabalho de pesquisa sobre o Peru. O objetivo era entender um pouco sobre a história do país, sua situação atual e, principalmente, sua educação. Fui pesquisando por páginas de escolas, ONGs, fundações e pessoas que desenvolvem trabalhos, sem fins lucrativos na área da educação. E assim, de forma bem despretensiosa, já nos dias da viagem, encontrei no Facebook uma página do Colegio Nacional Mixto N° 7089 “Romeo Luna Victoria, enviei uma mensagem pedindo autorização para conhecer a escola e observar seu funcionamento, e fui prontamente respondido por um outro perfil, o do professor Jorge Fernando Cárdenas Canchanya. Por um golpe de sorte, intervenção divina, ou seja lá o que queiram nominar, aí começa uma série de encontros que tornaram a expedição L4H a Lima ainda mais interessante. 

Fonte da Imagem: MEC Peru

13320402_10210051080212814_5627325101098918975_o-e1478463233361-264x300JORGE FERNANDO CÁRDENAS CANCHANYA

Jorge tem licenciatura em Ciências da Educação (Pedagogia) , é especialista em Educação Primária e Mestre em Ensino de Matemática na Educação Primária. Sua vontade era ser jornalista, mas devido a dificuldades em seguir nessa profissão, cedeu à influência que recebia da família materna, formada por professores, e se decidiu pela docência. Outra grande influência para sua escolha, segundo Jorge, foi ter feito parte de um grupo de escoteiros, no qual liderava classes de crianças entre 7 e 11 anos.

De origem humilde, ele sempre estudou em escolas públicas, onde se destacava entre os melhores da classe, principalmente nas disciplinas ligadas à leitura e linguagem. O bom desempenho culminou no ingresso, sem dificuldade, na universidade. 

Atualmente Jorge trabalha em duas escolas públicas;  de manhã ele trabalha no Colégio Romeo Luna Victoria como professor de uma turma do 4º ano primário, alunos entre 9 e 10 anos, de tarde, trabalha no Colégio Scipión Llona onde oferece reforço escolar a alunos de 1º, 2º e 3º anos, crianças entre 6 e 8 anos de idade, são alunos que assistem aulas regulares pela manhã e, devido a dificuldades, recebem um reforço escolar especializado no contraturno.  

“Sou filho único, minha

Escola que cura…

“Sou filho único, minha mãe me criou sem a ajuda de meu pai, consequentemente, ela era minha única família direta, ela nunca se envolveu com outras pessoas ou quis ter mais filhos, se dedicou a me dar educação e trabalhar até quando pude me manter. Logo quando tive forças para trabalhar, trabalhei e o fiz para mantê-la em sua velhice, apesar de ter a idade e as condições para formar minha própria família e me casar, decidi esperar que minha mãe tivesse uma melhor condição de vida e trabalhar somente por ela como professor de escola. 

No ano de 2005 tive a oportunidade de conseguir uma bolsa de estudos para viajar à França por três meses, no meu regresso vi que minha mãe havia emagrecido e sua saúde não estava bem. Exames foram feitos e me disseram que ela tinha câncer. Lutamos contra a doença, foram dias muito longos em que a levava ao hospital para fazer radioterapia, logo depois a deixava em casa e ia para a escola trabalhar, foram seis meses onde preferi não comentar essa dor com ninguém da minha escola, porque considerava que não podia levar minhas tristezas ao meu local de trabalho.

Lamentavelmente, um dia minha mãe faleceu em minha casa, não pôde resistir ao tratamento e a enfermidade a deteriorou tanto que ela não pôde seguir vivendo. Nesse dia faltei na minha escola, mas ninguém soube o porquê, só depois de sua cremação avisei à escola, pois segundo à lei, temos direito a sete dias de descanso por motivo do falecimento de algum familiar próximo. Em minha casa me sentia tão só e triste que ao terceiro dia dos sete que teria para descansar, regressei ao colégio para sentir-me em companha dos meus alunos, eles com sua inocência, com seu amor, conseguiram me dar a companhia que eu necessitava no luto para conseguir suportar os dias seguintes ao falecimento da minha mãe.

Meu trabalho de professor foi a terapia que eu necessitava para superar a depressão que pairava sobre mim, pouco a pouco, recobrei as forças de viver, de sair e prosseguir por eles, por meus estudantes e o resto da história foi surpreendente, conheci mais as famílias dos meus alunos, que parece que combinaram de me convidar para visitá-los para tomar café ou simplesmente para conversar, e simplesmente a irmã de um deles agora é minha esposa, na qual estamos casados há nove anos e temos três filhos.”

Capacidade técnica…

Graduado e com especializações Latu e Strictu Sensu,  Jorge está acima da média no que diz respeito ao nível de escolaridade para sua área de atuação. Para que se tenha uma ideia, no Brasil, ter professores na Educação Básica com nível superior completo ainda é uma meta a ser alcançada, atualmente, segundo o site Observatório PNE, temos 76,2% de profissionais nessa condição. Mais que graduado, ele é especialista e mestre, com pesquisas voltadas para sua área de atuação.

Ele também participa de um grupo de estudos na PUC Peru e alimenta um blog onde discute e compartilha experiências da profissão, o “Espacio de Jorge Cárdenas, Los temas que me interesan”. Trata-se de um professor pesquisador que tem experimentado, criado e proposto um trabalho mais criativo e eficiente, tendo conseguido espaço inclusive em uma publicação brasileira, a Revista de Produção Discente em Educação Matemática.  

Isso é um luxo para os padrões latino-americanos, e esse é um detalhe importante a ser ressaltado, principalmente para que desmistifique a figura do professor que faz tudo por amor. Jorge, assim como os outros heróis mestres que tiveram suas histórias contadas aqui, possui técnica, é um profissional munido de conhecimento e comprometido com sua profissão. Especialmente no contexto educacional peruano, onde o sistema privado de ensino capta os melhores profissionais já na universidade e oferecem melhores salários e condições, Jorge é um profissional que se destaca pela formação, pela produção acadêmica e pelo perfil inovador. Ao optar pelo ensino público, ele ainda demonstra uma atuação profissional norteada por convicções.  

E aí há quem pense que nada disso é mais que obrigação para um servidor público, e que não se é herói por desempenhar bem o papel a que se propõe. Sim, o princípio da ideia é corretíssimo, mas quando tratamos de um contexto ideal, o que não se aplica quando o assunto é educação pública. No contexto precarizado da educação na América Latina, ser bom e buscar excelência é um ato de resistência e heroísmo. 

De volta às origens…

De volta às origens…

Na imagem acima Jorge Cárdenas ministra aulas de reforço onde na escola em que estudou em sua infância. As paredes do Colégio Scipión Llona abrigaram um Jorge aluno e atualmente o assistem como professor.  

O profissional…

Acompanhei por alguns dias o trabalho de Jorge em suas duas escolas e me deparei com um profissional muito comprometido. Mas mesmo antes de ver o profissional em ação, seu currículo me chamou a atenção. Como escrevi aqui em uma publicação anterior, o Peru vive uma crise em seu sistema educacional, o país tem um sistema de ensino privado responsável por quase 50% das matriculas do país e mesmo com os atrativos oferecidos, esse sistema não conseguiu atrair Jorge Cárdenas.

Contrariando o fator baixa qualidade, o que pude conferir, da análise do material desse professor até acompanhando pessoalmente sua atuação em sala de aula, foi um trabalho de qualidade condizente com o seu nível de estudo. De acordo com a organização escolar adotada no país, ele é professor regente de uma turma de 4º ano, ministrando aulas de todas as disciplinas para seus alunos. As paredes de sua sala estavam repletas de produções, atividades na área de linguagens e exatas, principalmente.

Me explicando sobre tais produções, Jorge demonstrava muita precisão ao falar sobre os objetivos que pretendia alcançar em cada atividade. Algumas delas desconhecidas pra mim, o que me colocou em posição de aprendiz.  Eram atividades simples, as na área de linguagem, por exemplo, faziam uso de revistas, jornais ou imagens desenhadas sobre um papel. Seus métodos para desenvolver a capacidade de produção e compreensão de seus alunos se mostraram sofisticados, mas fazendo uso de materiais muito simples. 

Jorge diante dos portões do Colégio Scipión Llona, o local onde estudou durante a infância e onde hoje exerce sua profissão. 

Ao mestre com carinho…

Cheguei ao Colégio Romeo Luna Victoria, em um bairro de classe média baixa de Lima, em uma quinta-feira de manhã. Era uma semana de jogos interclasses, ação incentivada pelo MEC Peru como forma de fortalecer o ensino da Educação Física nas escolas do país, mais uma lição que aquele sistema pode nos ensinar, inclusive. Falarei sobre essa e outras lições em postagem especial sobre esse assunto.

Com a rotina modificada para a realização dos jogos, pude conversar mais com os alunos, ouvir a opinião deles sobre a escola, sobre as aulas, seus planos e problemas pessoas. Nessa avaliação feita pelos pequenos, ouvi muitos bons adjetivos sendo utilizados para descrever o professor Jorge Cárdenas, e isso deixou claro que, acrescido à técnica apurada pelo estudo e atualização contínua a que ele se submete, o professor possui também a capacidade de aproximação e empatia que promovem um grau elevado de aceitação por seus alunos. Postagens de pais e colegas de trabalho e estudo em sua página pessoal confirmam que essa aceitação ultrapassa sua sala de aula. A junção de técnica e aceitação é preciosa a um professor, o caminho de uma boa prática pedagógica passa, sem desvios, por esses dois aspectos.

Um professor empático mas sem técnica , ou o inverso disso, não chegarão tão longe quanto os que possuem essa dobradinha de características.

Esse é Jorge Cárdenas, um profissional que não negligencia com sua formação  e ao mesmo tempo constrói um vínculo com seu local de trabalho capaz de encontrar ali o ambiente ideal para curar um luto.

Este é somente o primeiro texto sobre os dias procurando heróis no Peru. Há muito mais histórias e imagens para dividir. 

5 respostas
  1. JORGE CÁRDENAS
    JORGE CÁRDENAS says:

    Muy agradecido por esta reseña, considero que estoy haciendo mi trabajo, el que me gusta hacer y para el cual he estudiado y sigo estudiando.
    Creo que el futuro de un país está en la buena educación de sus niños y jóvenes, que para eso estamos los profesores, para colaborar con esta misión.
    Considero que los maestros no estamos para tomar perjudicar a nuestros estudiantes si queremos hacer una protesta o reclamo sobre nuestras condiciones de trabajo, no creo justo paralizar mi trabajo y dejar de brindar mis servicios a mis escolares si se trata de un asunto donde se ha de protestar contra el gobierno o contra la autoridad, cada día que ellos dejan de hacer sus clases es un día de retraso a futuro de nuestra sociedad.

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  2. Jessica Smith
    Jessica Smith says:

    Muy linda historia, aparte de ser un excelente profesional siempre demostró ser un caballero , muy colaborador, gran compañero y con grandes virtudes, es un gran ser humano lleno de aptitudes y grandes virtudes. Dios siga iluminando su camino y sirva de gran ejemplo para nuestra sociedad y nuestra juventud.

    Responder

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