Aprendendo a multiplicar

Eles começaram o desafio de levantar fundos para a formatura no final do ano. Diferente de anos anteriores em que a escola oferecia a comemoração, desde 2016 temos desafiado os alunos nessa tarefa de empreender, e já no primeiro ano o resultado foi muito positivo.

Há cerca de três semanas foi entregue 40 reais aos meninos e meninas para que dessem início ao “negócio”. Junto com o dinheiro veio uma conversa sobre o motivo do projeto, discussões sobre maneiras de multiplicar o dinheiro e a responsabilidade de tirar o máximo de proveito de cada situação gerada a partir dessa proposta. Para esse projeto conto com a ajuda das professoras de Matemática e Ciências, de forma mais direta, mas toda a escola abraça a causa, o que facilita muito as coisas. Como professores buscamos aproveitar ao máximo o projeto para apresentar conteúdos, identificar, avaliar e desenvolver habilidades e discutir assuntos, volta e meia as penalidades por algum comportamento reprovável veem daí também. Na última semana, as vendas do famoso geladinho foram suspensas devido ao mal comportamento da turma.

Entramos na quarta semana do projeto e mesmo com uma semana de atividades paralisadas, os meninos conseguiram transformar R$40,00 em R$350,00. Para eles, o dinheiro é o grande prêmio, mas pra mim, o envolvimento da turma é o maior lucro. Gostaria de conseguir criar mais situações reais e empolgantes de aprendizado, essa “pedagogia da experiência” me encanta, eu acredito muito nela. Outro ganho muito importante pra mim é ver pais envolvidos na “tarefa de casa” dos filhos, coisa muito difícil de acontecer, e esse projeto conseguiu envolver duas mães na última semana.

Daqui até o final do ano espero ter muitos outros registros dos ganhos e possibilidades novas a partir dessa experiência, em educação é assim, a gente começa e nunca sabe ao certo como terminará.

 

 

 

 

 

 

Nossa passagem pela III CONANE – Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação

Nos dias 15,16 e 17 de junho aconteceu em Brasília a III CONANE – Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação. Uma profusão de contribuições para uma educação mais humana, sustentável, eficaz, democrática etc. Um modelo bem horizontalizado de evento, muita ideia sendo troca, muita gente em contato com gente. Sem dúvidas, uma grande oportunidade para discutir novas estratégias para uma nova educação.

Meses antes da realização, a organização da CONANE pediu contribuições sobre assuntos que deveriam ser contemplados no evento, entre os assuntos apontados; Educadores sonhadores – a busca solitária pela inovação na escola tradicional, e veio então sob a intervenção de Caio Dib e toque de Midas de Sonia Goulart a oportunidade de facilitar essa roda de conversa com a Eliane Rosa dos Santos, Paula Lobo e Patrícia Pederiva.

Esse tipo de experiência é sempre muito enriquecedor, especialmente porque ajuda a calmar corações de educadores sonhadores. Todo professor que carrega consigo esse ideal de educação libertador e inovador carrega consigo também as penas de sonhar em um cenário ainda muito cristalizado. Por isso, os desafios que foram colocados por todos ali na roda de conversa coincidiam; a sensação de solidão, não saber por onde começar, a resistência dos colegas de profissão, a desconfiança da sociedade e as exigências do mercado. Mas deu para confirmar, mais uma vez, que a sensação de solidão é só uma sensação, tem muita coisa bacana acontecendo em escolas por aí, e há muitos educadores sonhadores agindo em contextos ainda tradicionais.

Em uma oportunidade como essa, mais que simplesmente aprender com iniciativas já estabelecidas, a grande oportunidade é de entrar em rede, isso nos fará mais fortes e tornará nossas ações mais efetivas. Que venham mais CONANEs!!!

Empreendedorismo na escola

Tenho me debruçado sobre o desafio de construir condições didáticas. Uma das lembranças mais marcantes dos meus dias como aluno era o fato de ser apresentado aos conteúdos escolares de forma descontextualizada, aquela situação que gera os famosos questionamentos do tipo; “pra que eu vou precisar disso na minha vida?”.

Lendo um texto da Nova Escola sobre produção de texto, vi algo que explica muito bem essa falha do nosso modelo de educação. Um subtítulo do texto diz;Os textos redigidos em classe precisam de um destinatário”, é essa a ideia que pode conquistar a adesão dos alunos em qualquer disciplina. Quando o aluno não se vê dentro de uma situação real onde ele pode aprender e praticar suas habilidades, fica ainda mais difícil conquistá-lo para a aula.

Nem sempre é possível ou viável criar essas situações, mas quando a aula acontece dentro de uma situação real, com problemas capazes de levar o aluno a sentir-se desafiado, os resultados são mais certos e o processo mais prazeroso.

É pensando nisso que, desde 2016, decidi convencer os alunos do 9º ano a dispensar a festa de conclusão do Ensino Fundamental que normalmente a escola oferece a eles. Desde o ano passado nós os ajudamos a levantar a grana que precisam através da venda de bombons, realização de rifas e etc. Eles se sentem muito mais realizados ao final, quando conseguem escolher como irão comemorar e pagar a comemoração, e no durante esse percurso uma série de situações didáticas que servem a diversos conteúdos escolares de variadas disciplinas, contemplando ainda as preciosas habilidades.

Nesta primeira semana aconteceu a primeira ação, produção e venda dos famosos geladinhos. Eles foram responsáveis pela compra dos materiais, orçamentos, produção, divulgação e venda. Daqui até o final do ano vamos aproveitar essas situações reais para inserir o máximo de conteúdos e os alunos ainda estarão conhecendo habilidades que já possuem e desenvolvendo outras. Bem fora da caixa, do jeito que eles gostam!

 

 

Aniversário Alimente Heróis Com Livros!

Há um ano tínhamos uma das aulas mais interessantes que o projeto Looking 4 Heroes já possibilitou proporcionar. Cerca de 50 crianças ocupavam pela primeira vez uma livraria, e não só para ver, mas para comprar livros.

O projeto começou com uma campanha de crowdfunding que nos ajudou a conquistar os recursos necessários, motivou muito aprendizado de conteúdos e desenvolvimento de habilidades, criou ambientes para discussões e motivou alunos e o professor.

Pra quem não acompanhou esse projeto, temos duas postagens aqui no site sobre ele; Alimentando Heróis Com livros e Ressignificando a Leitura. Vai aí também um trecho do programa Conexão Futura que discutiu o uso pedagógico do financiamento coletivo.

Inova Escola

O caminho se faz caminhando… 

Na última semana dei um passo muito importante na caminhada que venho trilhando como professor em busca de inovação, caminho que percorro por realização pessoal e resultados com meus alunos. Adiantando as reflexões sobre esse passo, penso sobre como o caminho se faz caminhando, alguém já disse isso. Há um ano o Portal Telefônica Vivo publicou um texto sobre o Looking 4 Heroes, um dos meus textos preferidos sobre esse projeto. Foi o primeiro grande veículo a escrever sobre este site e o que ele representa pra mim. A atuação da Fundação Telefônica na educação confere toda uma importância ao meu trabalho ao dedicar um texto sobre o L4H em seu portal.  

Professor aluno…

Depois de ter sido selecionado entre representantes de todas as regiões do país, aterrissei em São Paulo para integrar um time que vai levar inovação para escolas públicas do Brasil. A tarefa é duplamente honrosa e afinada a tudo que tenho buscado através do meu projeto pessoal. Em primeiro lugar, tem um peso todo especial fazer parte de um projeto tão grandioso e com a chancela de instituições do tamanho da Fundação Telefônica e da importância do Instituto Crescer – esse assina o treinamento e o material do projeto. Em segundo lugar, atuar em escolas públicas incentivando a reflexão sobre as possibilidades de inovar é a grande cereja desse bolo, por dois motivos: o primeiro se deve ao fato de eu ter escolhido, por crenças pessoais, centrar na educação pública minha atuação. O segundo, porque o que mais tenho buscado através do Looking 4 Heroes é ter contato com pessoas envolvidas com educação, para encontrar meus Heróis e para levar algum tipo de informação e inspiração.

Para contar histórias é preciso viver histórias…

Um treinamento afinado, um time heterogêneo, mas coeso, e um material poderoso. Não bastasse o projeto ser sobre inovação e focado na educação pública, toda sua preparação demonstrou um olhar muito empático para a realidade do professor. Tenho falado e escrito muito sobre a dificuldade de perceberem a real situação da escola, os medos, os desafios, os sentimentos e possibilidades de quem, de fato, vive a escola de dentro dela. Há uma subestimação das dificuldades enfrentadas pelo professor, há uma “atmosfera” dentro da escola que é difícil de ser entendida por quem não a vivencia, e isso é totalmente compreensível, mas é preciso sensibilidade e empatia para os que falam e procuram agir nessa área, e eu senti essa sensibilidade nos materiais, na abordagem, nas pessoas à frente e nos objetivos do Programa Inova Escola. Inclusive, não seria coerente da minha parte compor uma equipe que não me entende enquanto professor.

Surge aqui mais uma porta aberta para e um professor com a cabeça cheia de planos para praticar com seus alunos esse aprendizado. Essa porta também trará muitas histórias de heróis para o Looking 4 Heroes, eu acredito. Essa mesma porta me levará aos colegas professores que podem se inspirar a dar outros contornos aos seus percursos. Enfim, essa porta é larga e dará acesso a um mundo de experiências. É um privilégio! Por mais incomum que pareça, eu sou um professor muito realizado e ter sido selecionado para o Programa Inova Escola também me faz sentir reconhecido! 

(Fonte das imagens 1 e 2: Portal Telefônica Vivo)

 

 

 

 

Essa imagem te lembra uma escola pública?

  • Uma mesa longa com 20 alunos concentrados em volta dela. 
  • Dispostos sobre essa mesa 5 notebooks e um celular, todos conectados através de Wi-Fi.
  • Um monitor de LED 42 polegadas conectado aos computadores através da plataforma Google Docs.
  • Dois professores disponíveis às solicitações dos alunos, um mestre e outro com duas graduações e uma especialização.
  • Uma escola disposta a mexer no seu horário para cumprir às demandas da proposta, no caso foram 2 horas diárias por 5 dias.

É essa a ideia que vocês fazem de uma escola pública? Com certeza não!

O fato de essa imagem não nos remeter a uma escola pública é muito compreensível, pelos simples fato de essa escola ter particularidades que a tornam diferente das outras, uma escola fora da curva. Não que seja uma escola privilegiada pelos investimentos que recebe, mas pelo acaso mesmo. E não que todas as nossas particularidades sejam vantagens, não são.

Eu me preocupo muito em não deixar que meu trabalho vire argumento para discursos falaciosos; “Estão vendo aí, estão vendo que é possível! Basta querer!”

Não é tão simples assim. A escola da imagem em questão é onde leciono há pouco mais de 2 anos. É uma escola de tempo integral, fica na zona rural de Goiânia e tem apenas 113 alunos. Parece poucos alunos, mas ainda assim é muito para a estrutura dela, com apenas 4 salas de aula, é preciso organizar as turmas com 2 séries em cada, as arcaicas turmas multisseriadas.

Somos uns privilegiados pelo fato de termos poucos alunos, embora tenhamos a dificuldade das turmas com duas séries diferentes. Vamos a alguns pontos que não podem passar batidos diante do sucesso ou fracasso meu e de tantos outros professores pelo país:

  • Equipamentos: dos 5 computadores, 2 são dos professores, são insuficientes, mas 5 máquinas para 20 alunos torna o ambiente mais possível que 5 para 40 alunos. Muitas escolas possuem ambientes informatizados e até internet, mas poucas possuem profissionais treinados para utilizá-los, e as máquinas pesadas e grandes impossibilitam disposições que viabilizem o trabalho.
  • O tempo: eu não conseguiria realizar esse trabalho com uma ou duas horas semanais. Estendê-lo por mais de uma semana não seria didático dada a dispersão iminente dos alunos. O excesso de conteúdos das matrizes curriculares impedem arranjos nos horários. Professores pressionados a cumprir essas matrizes nem sempre se dispõem a abrir mão de aulas em função desses arranjos.
  • Os conteúdos: 10 horas em uma única semana trabalhando “o mesmo conteúdo”, não foi “o mesmo conteúdo”, mas é assim que costumam nos enquadrar. Os fiscais de ensino país afora talvez não concordem com tamanho desperdício de tempo, já que no ENEM não cai habilidades não cognitivas, Design Thinking, Produções Colaborativas, conhecimento sobre aplicativos, modelos organizacionais desenvolvidos e utilizados pelas maiores empresas do mundo e etc. Sendo assim, que professor de escola pública vai querer se arriscar em reproduzir a cena da foto em suas salas de aula?
  • O corpo do professor: esse, exausto físico e psicologicamente, exposto a jornadas duplas e triplas de trabalho, com pouco ou nenhum tempo fora de sala para planejamento, é outro motivo para imagens como a da foto ou do vídeo aqui abaixo não serem comuns. Eu mesmo trabalho 60 horas semanais, isso significa sair 6 da manhã de casa, entrar às 7 na escola e sair às 17:20. Nesse meio tempo são 7 aulas, um privilégio, a maioria dos professores com 60 horas chegam a ministrar 20 aulas por dia, até mais que isso. Como conseguir disposição para passar 2 horas de pé sendo solicitado o tempo todo por 20, 30, 40 alunos?
  • A física: turmas lotadas, dispensa explicações.
  • A formação: quantos professores possuem dinheiro e tempo livre para buscar atualização de qualidade e constante? Infelizmente, o sistema levou a formação na docência ao patamar de cursos ruins que valem horas e não conhecimento. Pra quem trabalha com informação e conhecimento, um curso por semestre é pouco, muitos professores não fazem nem um por ano. Quando a formação é na área de tecnologia então, todo mês tem algo novo, e tudo é caro. E o acesso a tecnologias, também precisa de dinheiro! Se você ainda não sabe como eu, sendo professor, me atualizo, eu te respondo; eu me atualizo de forma muito irresponsável para os padrões, chego a investir o equivalente ao salário de um mês todo em um único curso ou evento de formação. Quantos mais podem fazer isso? E não posso deixar de falar que pago pra fazer o curso e ainda pago com cortes de ponto por me ausentar do trabalho, mesmo levando esse tipo de resultados aí para a escola. 
  • O perfil do professor: item polêmico, mas importante, por suas mazelas que vão do acesso à licenciatura, passando pelo lugar que ocupa na nossa cultura, e chegando ao salário e condições de trabalho, a educação atraiu muitos profissionais de perfil nada adequado à docência. Acrescido a vários outros fatores, esse profissional contribui para a perpetuação de uma imagem negativa da escola.

Eu poderia listar dezenas de outros motivos para explicar o fato de a imagem que as pessoas fazem de uma escola pública não parecer em nada com a das imagens deste post. Mas para que o texto não seja longo e nada atrativo, vamos parar por aqui. Todo projeto de sucesso que eu executo me liga o sinal de alerta para não deixar espaço para que meus colegas sejam questionados por não conseguirem o mesmo.

Eu sou um ponto fora da curva em uma escola fora da curva! Além disso, tem muito professor realizando grandes feitos por aí, esses feitos só não chegam até a maioria das pessoas porque nem todo professor quer expor seu trabalho e também porque a sociedade não se interessa pela escola, a menos que seja para criticá-la.

 

Introduzindo o Google Docs nas aulas

O momento da descoberta é mágico, pra aluno e professor! Estou experimentando dicas colhidas no Seminário Amplifica e o resultado tem sido de encher os olhos. Iniciei uma sequência didática sobre alimentação unindo duas disciplinas Ciências e Língua Portuguesa. A proposta foi feita pela colega de trabalho Adriana Silva, eu que adoro desafios nessa área, aceitei de cara.

Para isso começamos com uma oficina sobre a plataforma Google Docs, já ambientados com os apps os alunos iniciaram uma pesquisa sobre tópicos levantados com a professora de Ciências. Divididos em 5 grupos, os 20 alunos formaram um time desenvolvendo áreas específicas da temática levantada, criando um documento único no @Google Documentos, que dará origem a uma apresentação utilizando o app Google Apresentações. Todo o material vai gerar um vídeo gravado em um celular e editado no Windows Movie Maker que será postado no YouTube e exibido para toda a escola. Enquanto aprendem o conteúdo tradicional, eles desenvolvem habilidades caras ao mercado de trabalho e à vida como todo, tais como cooperação e trabalho em equipe, uso de tecnologias, capacidade de análise, mobilização, foco etc.

Como professores, eu penso que às vezes subestimamos a intimidade dos alunos com os recursos tecnológicos. Embora meus alunos tenham sido apresentados ao Google Docs e suas ferramentas só nesta semana, foi muito rápido a familiarização. Em minutos eles descobriram recursos que eu ainda não conhecia.  Os alunos com quem estamos desenvolvendo esse trabalho são do 8º e 9º anos, com idades entre 13 e 14 anos, eles compõem uma turma multisseriada. Moram em uma vila fora do perímetro urbano de Goiânia, em chácaras, fazendas e uma pequena parte na cidade de Nerópolis, interior do estado. Muitos nunca saíram da cidade e como recursos tecnológicos alguns possuem celulares e/ou computadores em casa. O acesso à internet, fora da escola, é conquistado muitas vezes através de planos de dados pré-pago, ou utilizando o sinal de wi-fi de algum vizinho ou estabelecimento. 

Embora o acesso à tecnologia seja limitado, eles são fruto de uma época que transpira tecnologia. Creio que já está na memória celular deles, e isso promove uma interação muito rápida com os recursos. Essa experiência está me fazendo refletir nesse sentido. Eu, que sempre busco apresentá-los a uma aula com abordagem inovadora, estou percebendo que ainda não tenho a real noção do quanto eles estão prontos para exercitar autonomia e experimentar tantos recursos que já estão aí disponíveis. A experiência está sendo revigorante, pra mim e para a professora Adriana.

Estou produzindo, em parceria com a Profª. Adriana, um PDF explicando como estamos executando o plano, se alguém se interessar, em breve ele estará disponível. Nas redes sociais do Looking 4 Heroes costumo postar imagens desta e de outras experiências. Não deixe de ler também observações que faço no final deste post, abaixo da foto. Não deixe de compartilhar e deixar seu comentário. Faça parte do processo!

Observações que preciso fazer:

1 – Uma professora aberta a testar e visualizando parcerias com outra disciplina. Isso é inovador, é grande e precisa ser assunto de reflexão. A lição é poderosa quando um profissional abre espaço em sua disciplina para inserir um novo olhar, outro profissional e seus conhecimentos específicos. Isso exige visão ampla, objetivos específicos e compromisso com resultados, não exatamente com seu ego.

2 – Temos uma turma multisseriada, mas com 20 alunos. A desvantagem da multisseriação é amenizada pela quantidade de alunos, mas como colocar um plano desse em prática em uma sala com 40 alunos? Eu não saberia, na verdade acredito que não seja uma questão de metodologia do professor, mas de impossibilidade mesmo. Mesmo dando certo, e dividindo as aulas com outra professora, exige muito de nós estar disponível e gerir uma aula como essa. Aplicar isso, principalmente na fase de iniciação, é espacialmente, fisicamente, metodologicamente impensável. Eu nem faria questão de tentar!

3 – Nossas aulas estão tendo duração de 2 e 3 horas durante essa semana. Toda a equipe se mobilizou, como de costume em nossa escola, para preparar o campo pra nós. O tempo das aulas precisa ser móvel para possibilitar inovação. A equipe precisa ser aberta e ter ciência de que os ganhos são do grupo, é assim que nós aqui na Escola José Carlos Pimenta agimos, e é por isso que temos realizado projetos quebrando a caixa por aqui.

 

Seminário Amplifica Internacional, eu fui!

Estive em São Paulo no último final de semana para participar do Seminário Amplifica Internacional, conforme dividi aqui no post anterior. A experiência foi muito rica, pude perceber que estou seguindo um caminho legal com meus alunos ao entrar em contato com grandes iniciativas que dialogam muito com os princípios que me guiam como professor. Também foi um grande momento para ver para onde o vento toca na área da educação e ser apresentado a muitas ideias inovadoras e totalmente possíveis de serem empregadas no meu trabalho. Mesmo tendo ido buscar renovar meu repertório em uma das cidades mais modernas do mundo em um evento inovador em uma das escolas mais caras e cheias de recursos do país, o que aprendi lá pode ser muito facilmente aplicado na minha escola na zona rural.

A inovação proporciona isso, rever usos de recursos muito disponíveis a muita gente atualmente. Na educação isso permite uma democratização impensável há algum tempo.

O modelo que o Amplifica utiliza foi outro ponto alto. O participante desenha sua trilha, assim temos a oportunidade de construir nosso percurso de acordo com nossos interesses, tal qual deveria ser a educação em todos os seus níveis. O tempo de duração das oficinas foi outra novidade pra mim e muito acertada, entre 25 e 30 min em média. Tudo muito objetivo e prático mas sempre de modo ao professor pensar a partir da sua própria realidade efetuando as adaptações necessárias. A ideia não foi entregar receitas, mas inspirar a partir de práticas desenvolvidas por professores para seus alunos. 

Entre inúmeras possibilidades, eu desenhei minha trilha da seguinte forma: Boas vindas com a Samara Brito > Práticas inspiradoras e inovadoras na escola com José Moran > Gamificação como estratégia para estimular o ensino com o Tiago Máximo > The Vídeo Revolution em sala de aula com César Azevedo > O Aluno como protagonista do processo de aprendizagem com Ivyz Urquiza > Os 4 princípios da Google para o uso de Tecnologia no processo de aprendizagem com Rodrigo Vale > Prototipando uma educação inovadora com Kadu Braga > Google forms – Educação personalizada: criando trilhas de aprendizagem com Eduardo Isaia e Conversa informal com Caio Dib, projeto Caindo no Brasil. Tudo isso pode parecer excesso de informação em pouto tempo, seria se eles tivessem adotado o método receita de bolo, o que não foi o caso.

Outro detalhe que faz toda a diferença no Amplifica é o fato dele ter sido idealizado e organizado por professores, as oficinas também tinham, na grande maioria, professores de sala de aula transmitindo suas experiências. Isso significa que era professor que transmitia uma experiência resultado da vivência da rotina de sala de aula, não alguém que refletiu a partir da experiência de outros. Como sempre gosto de deixar claro, nós professores negligenciamos muito e deixamos a educação ser definida por pensadores de escritório. Nada contra, mas viver a rotina da escola é essencial pra mim.

Minha participação no Amplifica Internacional ainda vai render muitos outros posts aqui no site e nas redes sociais, por hora vou finalizando por aqui com duas imagens de 2 dos muitos momentos incríveis dessa experiência.

Um ponto alto, pra mim, foi o momento do José Moran, um profissional-pensador da educação que é uma lição viva de inovação. Anotei muitos pensamentos dele e vou dividindo aos poucos em postagens. Inspirador!

Como cereja do bolo ainda conheci o grande Caio Dib. Minha cara de bobo na foto explica um pouco da emoção, a dedicatória no livro, meu segundo exemplar do Caindo no Brasil, mostra que o Caio além de visionário é também muito humano. Aliás, em educação, ser humano é ser visionário.

 

Quanto cu$ta voar na educação!

Investir na carreira pode ser um balsamo! Dos meus 5 anos e 3 meses como professor, sempre busquei cursos oferecidos pela minha rede de ensino, a rede pública municipal de Goiânia. Intercalados aos cursos e eventos dessa rede, também busquei participar de eventos e cursos da área do marketing, tecnologia e comunicação.

Devido a essa experiência, sempre me questionei sobre o fato de nós professores termos deixado perpetuar entre nós um modelo de formação tão teórico e chato. Até o ano passado, minha impressão era que eventos para professores eram um martírio, tanto que fui deixando de participar deles.

Em janeiro fiz um curso sobre palestras que me ajudou muito a repensar o preparo do material que crio para minhas aulas e também minha capacidade de comunicação. O investimento em tempo e dinheiro foi considerável, se comparado ao salário de professor que recebo, mas pra mim valeu a pena. A experiência melhorou o serviço que presto e isso consequentemente me trouxe satisfação, o que também melhora a qualidade dos meus serviços.

Agora estou novamente a caminho de São Paulo para participar de um evento super inovador e conceituado sobre educação. Excitado com a oportunidade de compartilhar experiência, aprender muito e encontrar grandes nomes dessa nova educação que está acontecendo Brasil afora, em muitos casos, extraoficialmente. Extraoficialmente porque o estado ainda não conseguiu alcançar o ritmo da educação inovadora que tem sido praticada em escolas por aí. E quando isso acontece, mais uma vez o professor paga para diminuir o atraso da educação pública.

E é sobre pagar o preço que eu estou pensando ao escrever este texto. Financeiramente falando, o investimento na carreira pode ser algo difícil para professores da rede pública, nossa realidade salarial é conhecida de todos. Além de possíveis limitações financeiras, é preciso lembrar também do fato de sermos engolidos por uma carga de trabalho que nos consome física e psicologicamente.  Nesse caso, restam os cursos oferecidos pelas redes públicas de ensino, muitas vezes ultrapassados, utilizando métodos nada inovadores, restritos a leitura de textos e slides, pouco relevantes. Quando o assunto é educação inovadora, esse modelo está longe de levar o profissional a algum lugar. Também preciso dizer que a possibilidade de escolher um evento do seu próprio interesse e poder pagar por ele torna a experiência muito mais valorizada e atrativa.

Criar seu próprio caminho pode ser algo demasiadamente caro, fora o investimento financeiro, ainda há também o psicológico. Ausentar-se da escola para se atualizar, mesmo arcando com os custos disso, como é o meu caso, às vezes custa olhares reprovadores dos colegas devido à nossa falta, nesse caso não trata-se de uma situação que eu vivencie, mas é uma realidade entre nós. Desde que comecei a voar longe em busca de criar um caminho independente, passei a ter muitas faltas não justificadas no trabalho. Pago com descontos no meu salário por me ausentar da escola para participar de eventos que não sejam oferecidos por minha rede. Para participar do Seminário Amplifica Internacional, por exemplo, além das passagens aéreas, locomoção na cidade, refeições, hospedagem e inscrição no evento, sofrerei o corte de um dia de trabalho, ironicamente o corte acontecerá em uma sexta-feira, dia em que, em tese, tenho metade da minha carga horária disponível para planejamento e formação. Por baixo, um investimento como esse pode custar quase o salário total de um mês de trabalho. Quantos profissionais podem fazer isso com certa frequência?

Preso a um sistema viciado e carente de refletir sua profissão, o professor precisa pagar um custo, muitas vezes bem alto, para encontrar o caminho das pedras. Diante do que está posto, acredito ser necessário pagar o preço da mudança para forçar que ela aconteça, mas poucos podem pagar esse custos, seja por uma vida financeira limitada, seja por uma autoestima abalada demais para enfrentar a cultura rígida que nosso sistema impõe. A atual e talvez a próxima geração de professores precisará arcar com esse custo para forçar uma mudança positiva.

Vejo São Paulo do alto e num misto de excitação e pesar penso que precisamos forçar uma mudança urgente no sistema público de ensino, do jeito que está, ele coloca diante do professor uma série de empecilhos para uma melhora. Como pode um profissional que trabalha com conhecimento ter dificuldade em acessá-lo! Mesmo assim, embora o pré-conceito diga o contrário, tem muito professor de escola pública pagando alto pra realizar uma educação acima da média e mais moderna que o sistema público é capaz de oferecer. Em se tratando de educação, voar é preciso, mesmo quando os ventos não sopram a favor.

P.S. 1 – Deixei um link pro site do evento no banner. Vou fazer outros posts nas redes sociais sobre como foi a experiência e devo escrever aqui no diário também.

P.S. 2 – Dividam comigo o que vocês pensam sobre o assunto. Vamos estabelecer um diálogo, e não precisa ser professor pra entrar nesta discussão. Comente, compartilhe com seus contatos, me ajudem a ampliar meu campo de visão. 

Aprendendo na prática a Pedagogia de Projetos

Nesta semana começamos na escola uma ação em conjunto envolvendo professores, coordenação e direção com o intuito de envolver ainda as famílias e comunidade em geral.

A ideia inicial era arrecadar fraldas para uma ex-aluna da escola que está grávida de quíntuplos, algo raríssimo. Mas o negócio tomou corpo, e eu tomei gosto. Resultado; estamos transformando a oportunidade em aulas sobre uma série de conteúdos. Eu mesmo dividi uma aula com a professora de ciências, enquanto eu trabalhava uma matéria publicada em site sobre o caso atento às questões textuais, a professora de ciências trabalha as questões técnicas ligadas à geração e gestação. Mas a situação ainda deu oportunidade prática de trabalhar probabilidade, técnicas e métodos de fertilização e etc.

Como etapa final do projeto, acontecerá um chá de fraldas, e envolvidos nas etapas de organização desse evento, os alunos ainda terão a oportunidade de, com outros professores, praticar até artesanato na confecção de lembranças.

Também sairemos nas ruas pedindo doações de fraldas, colando cartazes e convidando pessoas. E para expandir nosso raio de mobilização, ainda gravamos um vídeo. Uma oportunidade rica de movimentar os alunos e ainda ensinar valores e trabalhar habilidades.

É preciso a escola estar atenta ao que acontece em volta dele, no nosso caso, a mãe dos bebês é ex-aluna da escola, vizinha de alguns alunos e parente de outros. O caso está ganhando repercussão nacional, dada a sua raridade, e a escola precisa mostrar aos alunos que eles podem interferir positivamente e extrair aprendizado de situações como essa.

Mas também é preciso ter disposição e visão para além dos tradicionais parâmetros educacionais. Também não posso deixar de citar que é preciso ter uma estrutura que permita mexer em horários de aula, planejamentos individuais de cada disciplina e na rotina escolar de forma geral. O investimento é alto, mas o resultado vale a pena, eu mesmo aprendi muita coisa já no início desse projeto. Se alguém aí estiver disposto a ajudar os meninos com as fraldas, basta entrar em contato com a gente, vai ser bem motivador para eles, e pra nós professores, além de uma ajuda em boa hora para a mamãe dos quíntuplos.