Essa imagem te lembra uma escola pública?

  • Uma mesa longa com 20 alunos concentrados em volta dela. 
  • Dispostos sobre essa mesa 5 notebooks e um celular, todos conectados através de Wi-Fi.
  • Um monitor de LED 42 polegadas conectado aos computadores através da plataforma Google Docs.
  • Dois professores disponíveis às solicitações dos alunos, um mestre e outro com duas graduações e uma especialização.
  • Uma escola disposta a mexer no seu horário para cumprir às demandas da proposta, no caso foram 2 horas diárias por 5 dias.

É essa a ideia que vocês fazem de uma escola pública? Com certeza não!

O fato de essa imagem não nos remeter a uma escola pública é muito compreensível, pelos simples fato de essa escola ter particularidades que a tornam diferente das outras, uma escola fora da curva. Não que seja uma escola privilegiada pelos investimentos que recebe, mas pelo acaso mesmo. E não que todas as nossas particularidades sejam vantagens, não são.

Eu me preocupo muito em não deixar que meu trabalho vire argumento para discursos falaciosos; “Estão vendo aí, estão vendo que é possível! Basta querer!”

Não é tão simples assim. A escola da imagem em questão é onde leciono há pouco mais de 2 anos. É uma escola de tempo integral, fica na zona rural de Goiânia e tem apenas 113 alunos. Parece poucos alunos, mas ainda assim é muito para a estrutura dela, com apenas 4 salas de aula, é preciso organizar as turmas com 2 séries em cada, as arcaicas turmas multisseriadas.

Somos uns privilegiados pelo fato de termos poucos alunos, embora tenhamos a dificuldade das turmas com duas séries diferentes. Vamos a alguns pontos que não podem passar batidos diante do sucesso ou fracasso meu e de tantos outros professores pelo país:

  • Equipamentos: dos 5 computadores, 2 são dos professores, são insuficientes, mas 5 máquinas para 20 alunos torna o ambiente mais possível que 5 para 40 alunos. Muitas escolas possuem ambientes informatizados e até internet, mas poucas possuem profissionais treinados para utilizá-los, e as máquinas pesadas e grandes impossibilitam disposições que viabilizem o trabalho.
  • O tempo: eu não conseguiria realizar esse trabalho com uma ou duas horas semanais. Estendê-lo por mais de uma semana não seria didático dada a dispersão iminente dos alunos. O excesso de conteúdos das matrizes curriculares impedem arranjos nos horários. Professores pressionados a cumprir essas matrizes nem sempre se dispõem a abrir mão de aulas em função desses arranjos.
  • Os conteúdos: 10 horas em uma única semana trabalhando “o mesmo conteúdo”, não foi “o mesmo conteúdo”, mas é assim que costumam nos enquadrar. Os fiscais de ensino país afora talvez não concordem com tamanho desperdício de tempo, já que no ENEM não cai habilidades não cognitivas, Design Thinking, Produções Colaborativas, conhecimento sobre aplicativos, modelos organizacionais desenvolvidos e utilizados pelas maiores empresas do mundo e etc. Sendo assim, que professor de escola pública vai querer se arriscar em reproduzir a cena da foto em suas salas de aula?
  • O corpo do professor: esse, exausto físico e psicologicamente, exposto a jornadas duplas e triplas de trabalho, com pouco ou nenhum tempo fora de sala para planejamento, é outro motivo para imagens como a da foto ou do vídeo aqui abaixo não serem comuns. Eu mesmo trabalho 60 horas semanais, isso significa sair 6 da manhã de casa, entrar às 7 na escola e sair às 17:20. Nesse meio tempo são 7 aulas, um privilégio, a maioria dos professores com 60 horas chegam a ministrar 20 aulas por dia, até mais que isso. Como conseguir disposição para passar 2 horas de pé sendo solicitado o tempo todo por 20, 30, 40 alunos?
  • A física: turmas lotadas, dispensa explicações.
  • A formação: quantos professores possuem dinheiro e tempo livre para buscar atualização de qualidade e constante? Infelizmente, o sistema levou a formação na docência ao patamar de cursos ruins que valem horas e não conhecimento. Pra quem trabalha com informação e conhecimento, um curso por semestre é pouco, muitos professores não fazem nem um por ano. Quando a formação é na área de tecnologia então, todo mês tem algo novo, e tudo é caro. E o acesso a tecnologias, também precisa de dinheiro! Se você ainda não sabe como eu, sendo professor, me atualizo, eu te respondo; eu me atualizo de forma muito irresponsável para os padrões, chego a investir o equivalente ao salário de um mês todo em um único curso ou evento de formação. Quantos mais podem fazer isso? E não posso deixar de falar que pago pra fazer o curso e ainda pago com cortes de ponto por me ausentar do trabalho, mesmo levando esse tipo de resultados aí para a escola. 
  • O perfil do professor: item polêmico, mas importante, por suas mazelas que vão do acesso à licenciatura, passando pelo lugar que ocupa na nossa cultura, e chegando ao salário e condições de trabalho, a educação atraiu muitos profissionais de perfil nada adequado à docência. Acrescido a vários outros fatores, esse profissional contribui para a perpetuação de uma imagem negativa da escola.

Eu poderia listar dezenas de outros motivos para explicar o fato de a imagem que as pessoas fazem de uma escola pública não parecer em nada com a das imagens deste post. Mas para que o texto não seja longo e nada atrativo, vamos parar por aqui. Todo projeto de sucesso que eu executo me liga o sinal de alerta para não deixar espaço para que meus colegas sejam questionados por não conseguirem o mesmo.

Eu sou um ponto fora da curva em uma escola fora da curva! Além disso, tem muito professor realizando grandes feitos por aí, esses feitos só não chegam até a maioria das pessoas porque nem todo professor quer expor seu trabalho e também porque a sociedade não se interessa pela escola, a menos que seja para criticá-la.

 

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