Plano de Aula

“Vamos trocar figurinhas!”

Desde que comecei a compartilhar minha experiência através do L4H, tenho recebido mensagens e e-mails de muita gente querendo saber como eu trabalho. Quais os métodos que uso, como planejo e desenvolvo minhas aulas e como promovo a interação entre meus alunos, eu e os conteúdos das minhas aulas. Eu acho bem interessante quando me perguntam dessa forma mais expandida, tipo; como você ensina? Como você organiza os alunos? Como você propõe um assunto? Como você escolhe um material? Quais métodos você usa? etc. Quando me pedem “meu plano de aula”, eu confesso que sinto que a pessoa não está conectada com a proposta. Desculpe-me aí quem fez esse pedido, eu vou explicar melhor.

Plano de aula é coisa demasiadamente engessada para quem se compromete com uma educação “fora da caixa”. Essa nomenclatura se tornou motivo de enfado, burocracia, cobrança, mero documento. Alguém aí se relaciona bem com esse temido personagem?!  Eu não me dou bem com ele. Já na faculdade ele se tornou motivo de medo, para fugir da tarefa tortuosa de pari-lo, todo mundo recorria ao famoso CTrl + C e Ctrl + V. Pouco se refletia sobre a elaboração de um plano e, pior que não refletir sobre ele é priorizá-lo em detrimento do aluno. Mas eu tenho percebido que hoje a cobrança diminuiu, ao menos por onde passei, e especialmente na escola onde trabalho hoje, plano de aula é detalhe, minha coordenadora pedagógica quer ver aula boa.

Como a educação virou reduto de relatórios, planos e burocracias que tiram tempo e foco do que realmente é importante!

Meu planejamento nasce de ideias que eu tenho no decorrer de todo meu dia. Minhas aulas de maior sucesso nascem de músicas, filmes, notícias e até fofoca de celebridades. Mesmo os conteúdos gramaticais nascem de assuntos. A gente discute algo e disso entramos em análises textuais, semânticas, morfológicas ou sintáticas. Outro dia introduzi a leitura de Morte e Vida Severina a partir dos perfis no Instagram das icônicas Kardashian. Eu entro em sala com pretensões de assuntos e totalmente despido do orgulho de “fazer o que planejei”. Em outra experiência, fui trabalhar um material do livro didático, eu o uso pouco, mas uso! No livro tinha uma menção ao acidente radiológico ocorrido em Goiânia, o caso césio 137. Era uma notinha de um parágrafo só, não era o assunto principal. Vi que os alunos se interessaram e, pasmem, mesmo morando na cidade onde tudo aconteceu, eles nunca haviam ouvido falar sobre o fato! Como passar por cima do assunto que os alunos indicaram ser do interesse deles! É claro que às vezes, quando isso acontece, nasce uma moeda de troca, eu uso a curiosidade deles pra negociar o cumprimento do que precisa ser ensinado, ganho o comprometimento deles, depois volto e quem indica o caminho que devo seguir são os meninos. Mas no caso da aula sobre o césio 137, ficou claro pra mim que conhecer, com detalhes, este capítulo da história do país criaria neles uma abertura para o trabalho com assuntos mais técnicos, além de promover a leitura, debates, produções orais e textuais etc.

Em cima desses assuntos vimos documentários, reportagens da época do ocorrido, depoimentos atuais de sobreviventes, textos com ponto de vista e análises de profissionais etc. A professora de ciências ainda aproveitou o clima de curiosidade e ofereceu aulas sobre material radioativo, bomba atômica etc. Foi possível trabalhar as bombas atômicas lançadas na Segunda Guerra e os maiores acidentes nucleares da história. Desses papos, saíram aulas sobre gêneros textuais: reportagem, resenha crítica, relato, sujeito e predicado, dúvidas ortográficas, produção textual e etc. Tudo isso não estava planejado, eu precisei acessar informações que acumulei no decorrer da minha vida, através de estudo intuitivo, aprendizado não sistematizado. No decorrer das aulas que se seguiram, o assunto rendeu umas duas semanas e muitas aulas, pude me preparar com certa antecedência, mas de início precisei ter o mínimo de conhecimento para aproveitar o sinal deles e fisga-los para mim. O iPad e celular conectados à internet também fazem toda a diferença em um modelo de ensino como esse. E o que eu posso dizer sobre essas aulas onde consegui uma troca super proveitosa com meus alunos! Duas semanas de aprendizado real, em cima de um assunto do interesse deles, mas que começou com uma proposta de aula que não deu certo. Plano de aula em um caso como esse, só depois que tudo acaba, eu pego meu caderno e escrevo ali um esboço do que aconteceu, os verbos todos no passado. E eu digo que grande parte do que atinge meus alunos e produz conhecimento acontece dessa forma. O que exige muito de mim. Ser professor dessa geração de alunos exige, cada vez mais, um perfil específico de profissional; atualizado, leitor, curioso, despido de modelos, versátil, multitarefas. Você pode entender essa afirmação como falta de modéstia, pra mim é uma constatação.

Mas voltemos  ao assunto inicial, plano de aula! O inicio de um novo conteúdo é marcado pela exibição de material de forte apelo! Meu grande desafio é, após chamar a atenção dos alunos através de imagens, ou mesmo de um bom texto, direcionar essa atenção para o que eu pretendo ensinar e fazê-los encontrar relevância no assunto da aula.

Nem sempre eu consigo lograr sucesso, e aqui reside um segredo para se sentir em paz nessa profissão. Nem sempre dá certo! Seu conceito de sucesso precisa ser revisto ao ingressar na carreira do magistério. Alcançar todos os alunos por exemplo, não é sucesso, é utópico mesmo! Essa angústia não me vence. Eu trabalho com gente, e gente não tem manual, as “variáveis variam” muito! Pra mim, 4 acertos em 10 tentativas já é um bom número nessa área, falo isso sem medo de ser taxado como conformista. Este site me resguarda dos que quiserem ler superficialmente essa afirmação. Um professor que constrói, de forma independente, uma ferramenta como esta, tem o direito de sentir-se imune a julgamentos precipitados. 4 acertos em 10 tentativas é sim um ótimo número, é claro que o número não é literal! Quem afirma isso é um professor inquieto que decidiu abandonar os métodos tradicionais. A nova educação começa com a premissa de que, errar faz parte do processo, mas errar tentando. E errar tentando acertar, não errar aplicando modelos pré-estabelecidos, concebidos sem a participação do aluno, em algum lugar lá no passado.

Acho que o texto já ficou muito grande. Preciso pensar nas características do leitor nos dias de hoje – esse pensamento precisa ser levado para a hora de “planejar a aula”. Nada que exija muitos minutos de atenção é capaz de fidelizar alguém atualmente. Portanto, vou parando por aqui. Tenho muitas coisas a compartilhar e não posso te perder logo no primeiro texto.

Mas pra finalizar, falando sobre este espaço, vou compartilhar aqui textos sobre minha prática, meus “planos de aula” de sucesso e os fracassados também. Com o tempo eu quero arrumar um nome para substituir “plano de aula”. Os meus são feitos lá quando tudo acaba, na verdade não são planos, são uma espécie de relatório ou diário.

Me comprometo em colocar aqui, através de textos e imagens, mais em textos que em imagens, como eu tenho desenvolvido minha experiência de educador “fora da caixa”. Talvez eu decida fazer este diário em vídeo, já que a prioridade é atingir meu interlocutor, mesmo objetivo que persigo em sala. Aceito opiniões!

Passe por aqui mais vezes e traga visitas.

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